Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL
Índice
- Apresentação geral: o que é este estudo e por que importa
- O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas
- A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
- O que isso muda na prática: implicações para pacientes
- Você sabia que…?
- Referência científica
Apresentação geral: o que é este estudo e por que importa
Quando não existe consenso médico sobre uma doença, cada médico trata de um jeito. Para quem tem lipedema, isso pode significar anos perdidos até encontrar um profissional que entenda a condição — e um tratamento que realmente ajude.
Para mudar esse cenário no Brasil, a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) reuniu especialistas de todo o país para criar o primeiro Consenso Brasileiro de Lipedema. O resultado foi publicado no Jornal Vascular Brasileiro em 2025.
O estudo usou a metodologia Delphi — uma técnica reconhecida internacionalmente para construir consenso entre especialistas. Em três fases, um grupo de 7 autores especialistas elaborou 90 afirmações sobre o lipedema, que foram avaliadas por 113 profissionais de saúde em uma segunda rodada, e 59 especialistas participaram de uma validação final.
O objetivo era simples e urgente: criar uma base comum de conhecimento para que médicos de diferentes especialidades — cirurgiões vasculares, endocrinologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos — pudessem trabalhar juntos em benefício das pacientes.
O lipedema é complexo, ainda subdiagnosticado e ainda cercado de muita desinformação. Este consenso representa um passo importante para mudar isso — especialmente em um país em que se estima que cerca de 8,8 milhões de mulheres vivam com a doença.
O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas
Imagine ter uma doença que dói, limita seus movimentos, afeta sua saúde mental e ainda é confundida rotineiramente com “gordura comum”. Essa é a realidade de milhões de mulheres brasileiras com lipedema.
O Consenso Brasileiro de Lipedema deixa registrado, com dados e expertise de mais de 170 especialistas, o que as pacientes já sabem na pele: o lipedema não é um problema de disciplina ou vontade. É uma doença crônica, sistêmica, progressiva — e que afeta muito mais do que a aparência.
Entre as afirmações que alcançaram consenso entre os especialistas está esta: “O lipedema pode impactar negativamente a saúde mental e a qualidade de vida em geral” — com concordância de 4,66 numa escala de 1 a 5.
Também ficou estabelecido que mudanças hormonais durante a puberdade, gravidez e menopausa podem desencadear ou agravar os sintomas (concordância 4,46). Isso explica por que tantas mulheres relatam que os problemas começaram na adolescência, pioraram na gestação ou recomeçaram na menopausa — e, mesmo assim, demoraram décadas para receber um diagnóstico.
O consenso também reconhece que o impacto psicológico parece ser mais frequentemente uma consequência dos sintomas do que uma causa inicial (concordância 4,65). Em outras palavras: a ansiedade e a depressão que muitas pacientes desenvolvem são resultado do sofrimento causado pela doença — não o contrário.
A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
Mais de 170 especialistas de todo o Brasil participaram, em três fases, para construir o Consenso Brasileiro de Lipedema. Ao final, a grande maioria das 90 afirmações avaliadas atingiu consenso — com apenas 9 precisando de mais pesquisa.
Algumas das descobertas mais importantes do consenso:
- Prevalência: O consenso endossou a estimativa de que 12,3% da população feminina adulta brasileira tem lipedema (nível de evidência B), com concordância de 3,78 — um número considerável considerando tratar-se de uma doença ainda pouco conhecida.
- Tratamento conservador em primeiro lugar: Os especialistas concordaram (4,52) que o manejo conservador deve incluir mudanças de estilo de vida, nutrição, terapia compressiva e exercícios de baixo impacto — antes de qualquer cirurgia.
- Cirurgia não é a primeira opção: A decisão cirúrgica não deve ser considerada antes de 1 ano de tratamento clínico (concordância 4,46), e deve ser aprovada em conjunto pelo médico clínico, cirurgião e paciente, com melhora da mobilidade como objetivo principal.
- Abordagem multidisciplinar é essencial: A concordância para essa afirmação foi de 4,48, com ênfase em médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e profissionais de saúde mental trabalhando juntos.
- Dieta anti-inflamatória e cetogênica: Mostraram melhora sintomática em determinadas pacientes (concordância 4,16).
- Vitamina D: Deficiência é comum em mulheres com lipedema e deve ser monitorada e suplementada (concordância 4,13).
O que isso muda na prática: implicações para pacientes
O Consenso Brasileiro de Lipedema é mais do que uma publicação científica. É um guia que pode mudar a forma como você é tratada — e o que você pode exigir do seu atendimento médico.
Você tem direito a uma abordagem multidisciplinar. O consenso estabelece que cirurgiões vasculares, endocrinologistas, ortopedistas, cirurgiões plásticos, psiquiatras, ginecologistas, fisioterapeutas e nutricionistas devem trabalhar juntos no cuidado de quem tem lipedema. Se você só recebe orientações de um único especialista, pode ser hora de ampliar sua equipe.
Tratamento conservador vem primeiro. Os especialistas concordaram que o tratamento não invasivo — dieta, exercício na água, drenagem linfática, compressão — deve ser a base do cuidado. A cirurgia, quando indicada, só deve ser considerada após pelo menos 1 ano de tratamento clínico.
O IMC não é um bom critério para diagnóstico. O consenso reconhece que o IMC tem valor limitado para diferenciar lipedema de obesidade (concordância 4,13). Medidas como a relação cintura-quadril e cintura-altura são mais úteis.
Joelho em valgo (para dentro) é um sinal importante. O consenso estabeleceu que o joelho valgo é comum em pessoas com lipedema e pode afetar a marcha e aumentar o risco de gonartrose (artrose do joelho) — e deve ser avaliado e acompanhado.
Diagnóstico precoce importa muito. O consenso deixou claro: um diagnóstico tardio ou um tratamento tardio afeta negativamente a carga de sintomas e a qualidade de vida (concordância 4,45). Quanto mais cedo o tratamento começa, melhor.
Você sabia que…?
Você sabia que os especialistas brasileiros chegaram a consenso de que a cirurgia de lipedema NÃO deve ser considerada antes de 1 ano de tratamento clínico?
Isso foi estabelecido no primeiro Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em 2025, com participação de mais de 170 especialistas de todo o país. A afirmação “A decisão para um procedimento cirúrgico no tratamento do lipedema não deve ser tomada precipitadamente; não deve ser considerada antes de 1 ano de tratamento clínico” atingiu concordância de 4,46 em 5 entre os especialistas.
Isso não significa que a cirurgia seja proibida ou ineficaz — ela tem seu papel. Mas o consenso deixou claro que o tratamento conservador (dieta, exercício de baixo impacto, drenagem linfática, compressão e suporte nutricional e psicológico) deve vir primeiro, sempre.
Outro dado surpreendente: o consenso reconheceu que a deficiência de vitamina D é frequente em mulheres com lipedema (concordância 4,13) — um dado que muitas pacientes não sabem e que pode fazer diferença no manejo da inflamação associada à doença.
E ainda: a afirmação de que “a progressão dos sintomas do lipedema pode ser atenuada ou mesmo evitada com o tratamento adequado e hábitos de vida saudáveis” atingiu a maior concordância do estudo: 4,71 em 5. Isso significa que o lipedema não precisa necessariamente piorar — desde que seja bem tratado.
Cuidar do lipedema é possível. E começa com o diagnóstico certo e uma equipe preparada.
Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).
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