Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL
Índice
- O que é este estudo e por que importa
- O problema: como o glúten pode inflamar quem tem lipedema
- A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
- O que isso muda na prática
- Você sabia que…?
- Referência científica
O que é este estudo e por que importa
Muitas mulheres com lipedema relatam que, após retirar o glúten da alimentação, seus sintomas melhoram — menos dor, menos inchaço, menos inflamação. Mas por que isso acontece? Existe uma explicação genética para esse fenômeno?
Um estudo publicado em 2023 na revista Cureus, por pesquisadores brasileiros, foi o primeiro a investigar a prevalência de dois marcadores genéticos — HLA-DQ2 e HLA-DQ8 — em mulheres com lipedema. Esses marcadores são os principais genes associados à doença celíaca, mas também estão presentes em pessoas que não têm celíaca e mesmo assim reagem ao glúten de formas diversas.
Os pesquisadores analisaram amostras de sangue de 95 mulheres diagnosticadas com lipedema e compararam os resultados com dados da população geral. A pergunta central era: mulheres com lipedema teriam esses marcadores genéticos em maior proporção? E se sim, isso ajudaria a explicar por que tantas delas melhoram com a dieta sem glúten?
Os resultados abriram uma porta importante para entender a inflamação no lipedema de um ângulo completamente novo — o ângulo genético e imunológico. E podem, no futuro, ajudar a personalizar o tratamento de cada paciente.
O problema: como o glúten pode inflamar quem tem lipedema
O lipedema é uma doença inflamatória crônica do tecido gorduroso, que afeta principalmente os membros inferiores das mulheres. A inflamação é cíclica — tem momentos de piora e de melhora — e é ativada por diferentes gatilhos: hormônios, estresse, trauma e também alimentação.
O glúten, presente no trigo e em muitos alimentos industrializados, pode aumentar a permeabilidade intestinal em certas pessoas. Quando isso acontece, substâncias que normalmente ficam dentro do intestino “vazam” para a corrente sanguínea, ativando uma resposta inflamatória do sistema imune.
Para quem tem lipedema — uma condição já marcada pela inflamação crônica — essa inflamação adicional causada pelo glúten pode piorar os sintomas: mais dor, mais inchaço, mais sensação de peso nas pernas.
E aqui entra a questão genética: genes como HLA-DQ2 e HLA-DQ8 são associados a uma maior sensibilidade ao glúten. Quem carrega esses genes não necessariamente tem doença celíaca, mas pode ter uma resposta imune exagerada ao glúten que passa despercebida em exames comuns.
O estudo mostrou que mulheres com lipedema têm esses genes em proporção maior do que a população geral — o que pode explicar por que tantas relatam melhora ao adotar uma dieta sem glúten.
A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
Os números do estudo são reveladores. Entre as 95 mulheres com lipedema analisadas:
- 47,4% tinham o gene HLA-DQ2 (vs. 41,2% na população geral)
- 22,2% tinham o gene HLA-DQ8 (vs. 11,3% na população geral — quase o dobro!)
- 61,1% tinham ao menos um dos dois genes (vs. 53,7% na população geral)
- 7,4% tinham os dois genes simultaneamente (vs. apenas 1,2% na população geral — mais de seis vezes a proporção geral!)
Todas essas diferenças foram estatisticamente significativas (p<0,0001), confirmadas por teste qui-quadrado.
Um detalhe importante: o estudo também mostrou que pacientes com HLA-DQ2 positivo tinham, em média, peso menor (76,6 kg vs. 80,2 kg geral) e IMC menor (28,9 vs. 30,3 geral). Isso sugere que esse subgrupo pode responder melhor ao tratamento — possivelmente porque, ao identificar e retirar o glúten da dieta, a inflamação diminui e o controle de peso melhora.
Vale lembrar: esse é o primeiro estudo no mundo a investigar esses marcadores genéticos especificamente em pacientes com lipedema. Um passo pioneiro.
O que isso muda na prática
“Tirei o glúten da dieta e melhorei muito.” Essa frase é comum entre mulheres com lipedema. Mas muitas vezes é vista com ceticismo, porque não existe exame que prove a sensibilidade ao glúten nesse contexto.
Esse estudo oferece um passo em direção a uma explicação científica para esse fenômeno. E, na prática, ele muda algumas coisas:
Para pacientes: Se você tem lipedema e ainda não tentou uma dieta de exclusão do glúten por um período (geralmente 3 a 6 meses), vale conversar com seu médico ou nutricionista sobre essa possibilidade. Não é necessário ter doença celíaca para se beneficiar.
Para médicos: A testagem de HLA-DQ2 e HLA-DQ8 pode se tornar parte do protocolo de investigação do lipedema. Pacientes HLA positivos podem ser candidatas prioritárias à orientação dietética com restrição de glúten.
Para a ciência: O estudo abre caminho para pesquisas futuras que investiguem se pacientes HLA positivos se beneficiam mais da dieta sem glúten do que as HLA negativas. Se essa hipótese for confirmada, poderemos personalizar o tratamento nutricional do lipedema com base no perfil genético de cada mulher.
O futuro do tratamento do lipedema passa pela individualização. E começa pelo prato.
Você sabia que…?
Você sabia que mulheres com lipedema têm mais de seis vezes a proporção de genes que predispõem à sensibilidade ao glúten, em comparação com a população geral?
No estudo brasileiro publicado em 2023, 7,4% das mulheres com lipedema tinham simultaneamente os genes HLA-DQ2 e HLA-DQ8 — os principais marcadores genéticos de sensibilidade ao glúten. Na população geral, esse número é de apenas 1,2%.
Isso não significa que todas as mulheres com lipedema têm doença celíaca — ao contrário, todas as participantes do estudo foram testadas e não tinham celíaca. Mas esses genes podem predispor a uma reação inflamatória ao glúten mesmo sem a doença declarada.
E existe uma lógica por trás disso: o glúten pode aumentar a permeabilidade intestinal em pessoas susceptíveis, permitindo que substâncias inflamatórias entrem na corrente sanguínea. Em pessoas com lipedema — uma condição já marcada pela inflamação crônica — esse gatilho pode intensificar os sintomas.
Por isso, a orientação para retirar alimentos ricos em glúten da dieta, comum em protocolos como a dieta RAD (Rare Adipose Disorder) e a dieta mediterrânea modificada, pode ter uma base genética e imunológica mais sólida do que se imaginava.
A ciência está começando a explicar o que muitas pacientes já sentiam na pele — ou melhor, nas pernas.
Referência científica
Amato AC, Amato LL, Benitti D, Amato JL. Assessing the prevalence of HLA-DQ2 and HLA-DQ8 in lipedema patients and the potential benefits of a gluten-free diet. Cureus. 2023;15(7):e41594. DOI: 10.7759/cureus.41594.
Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).
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