Esta é a cartilha da Associação Brasileira de Lipedema: um guia completo e gratuito, para ler aqui mesmo, escrito para quem convive com lipedema, para as famílias e para quem quer entender a doença. Ela reúne o que a pesquisa sustenta hoje, com referências numeradas no fim da página.
Existe também uma versão resumida, pensada para imprimir, levar a uma consulta ou entregar a quem ainda não conhece a doença: Baixar a cartilha em PDF .
O que é o lipedema
O lipedema foi descrito em 1940 por Edgar Allen e Edgar Hines, na Mayo Clinic, como um acúmulo anormal de gordura nas pernas e nos glúteos, dos dois lados do corpo [1]. Hoje é reconhecido como doença crônica do tecido adiposo subcutâneo, a gordura logo abaixo da pele. O que o caracteriza é um aumento simétrico e desproporcional dessa gordura nas pernas, e às vezes nos braços, em relação ao tronco, em geral poupando pés e mãos [1, 2].
O Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em 2025 pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, descreve a doença como crônica e sistêmica, que exige cuidado de uma equipe com vários profissionais. A causa ainda não é totalmente conhecida; os especialistas apontam fatores genéticos, hormonais e inflamatórios [2].
Um ponto precisa ficar claro desde o início: o lipedema não é resultado de falta de esforço. A gordura do lipedema responde pouco a dieta e a exercício comuns, e quando há perda de peso ela aparece sobretudo no tronco, deixando as pernas desproporcionais [1]. Num estudo com famílias acompanhadas em Londres, 96% das pacientes avaliadas relataram que a dieta não reduzia a gordura abaixo da cintura [3]. Lipedema e obesidade são condições diferentes, uma não causa a outra, mas podem acontecer juntas, e a obesidade pode agravar os sintomas [2].
Quem tem lipedema
O lipedema atinge quase exclusivamente mulheres. Os sintomas costumam começar na puberdade ou no início da vida adulta e podem avançar em momentos de mudança hormonal, como gestação e menopausa [1]. No Brasil, um estudo com questionário validado aplicado a 253 mulheres adultas, com distribuição por idade semelhante à da população, estimou que 12,3% têm sintomas sugestivos de lipedema, o equivalente a cerca de 8,8 milhões de brasileiras de 18 a 69 anos, segundo a projeção dos próprios autores [4]. A estimativa vem de questionário, sem exame clínico de cada participante, mas mostra que a doença não é rara.
É comum haver outras mulheres na família com o mesmo padrão. A literatura descreve ocorrência familiar entre 16% e 45% [1], e no estudo britânico de famílias todos os parentes afetados eram mulheres de primeiro ou segundo grau [3].
Em homens, o lipedema é possível, mas raro [2]. Os casos masculinos descritos costumam ter alguma alteração hormonal associada [1, 3], e uma série brasileira de cinco homens mostrou o mesmo padrão clínico visto nas mulheres [5].
O lipedema também aparece em mulheres de peso normal: no estudo brasileiro que definiu critérios de ultrassom, a diferença na espessura da gordura entre quem tinha e quem não tinha a doença se manteve em todas as faixas de peso nos principais pontos de medida [6].
Sinais que chamam atenção
O capítulo 22 do livro Propedêutica Vascular, dedicado ao lipedema, e o Consenso Brasileiro descrevem um conjunto de sinais que, juntos, levantam a suspeita [1, 2]:
- Desproporção simétrica. Quadris, coxas e pernas, às vezes braços, maiores do que o tronco, dos dois lados.
- Pés e mãos poupados. A gordura para no tornozelo ou no punho, formando uma espécie de degrau, chamado sinal do manguito ou efeito bracelete.
- Dor ao toque. Sensibilidade à pressão e dor nas áreas afetadas.
- Roxos fáceis. Manchas roxas que aparecem sem pancada lembrada.
- Peso e inchaço. Sensação de pernas pesadas e inchadas, que piora ao longo do dia, em pé e no calor, com marcas da roupa no fim do dia. Elevar as pernas, em geral, não reduz o volume.
- Textura diferente. Ao toque, a gordura pode parecer granulada, descrita pelas pacientes como grãos de areia, bolinhas de isopor ou “saco de sagu”.
- Piora hormonal. Início ou agravamento na puberdade, na gestação ou na menopausa.
- Resistência à dieta nas pernas. O rosto e o tronco emagrecem; as pernas não acompanham.
- Cansaço e perda de força, e, com a progressão, acúmulos de gordura na face interna dos joelhos que podem alterar a marcha.
Atenção. Nenhum desses sinais, sozinho, fecha o diagnóstico. Não existe hoje exame de imagem, de sangue ou genético aprovado para confirmar o lipedema [7]. Quem reconhece o conjunto deve procurar avaliação profissional, não um tratamento por conta própria.
O que o lipedema não é
Por ser pouco compreendido, o lipedema é confundido com frequência com obesidade e com linfedema [1], e também com celulite.
Celulite. A celulite, ou lipodistrofia ginoide, é a lipodistrofia mais comum e atinge milhões de mulheres depois da puberdade, sobretudo nos glúteos [8]. Muitas pacientes descrevem a textura do lipedema como “celulite” [1]. As duas condições podem coexistir e, nos quadros leves, a fronteira entre elas pode ser difícil até para especialistas [9]. O que orienta a diferença é o conjunto: desproporção, simetria, dor ao toque, roxos fáceis e pés poupados. Veja a comparação em lipedema ou celulite.
Obesidade. Na obesidade, a gordura se distribui pelo corpo todo; no lipedema, concentra-se nos membros e responde pouco a dieta e exercício comuns [1]. O índice de massa corporal tem valor limitado para separar as duas situações, e a relação entre cintura e altura é recomendada para avaliar a obesidade [2, 7].
Linfedema. O linfedema é uma doença do transporte da linfa, em geral assimétrico, que atinge os pés, com frequência não dói e não forma roxos com facilidade [1]. O lipedema avançado pode, com o tempo, sobrecarregar o sistema linfático e evoluir para lipolinfedema, quando o pé passa a inchar [1].
A tabela abaixo foi adaptada do Quadro 22.1 do livro Propedêutica Vascular [1]:
| Característica | Lipedema | Linfedema | Obesidade |
|---|---|---|---|
| Quem é afetado | Quase só mulheres; raro em homens, em geral com alteração hormonal | Homens e mulheres | Homens e mulheres |
| Onde aparece | Quadris, nádegas e pernas; pode atingir os braços | Braços e pernas; pode ocorrer em qualquer parte do corpo | Corpo todo |
| Pés | Poupados, exceto no lipolinfedema | Atingidos | Não é habitual, embora ocorra às vezes |
| Lados do corpo | Os dois | Comumente um só; quando dos dois lados, assimétrico | Os dois |
| Dor | Sim | Não com frequência | Não |
| Alterações da pele | Não | Sim, em fases tardias | Não |
| Sinal de Stemmer | Negativo | Positivo | Negativo |
| Inchaço ao apertar (cacifo) | Não afunda ou afunda pouco | Afunda nos estágios 1 e 2; deixa de afundar no estágio 3 | Normalmente não há |
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico do lipedema é clínico: depende da história, do exame físico e da exclusão de outras causas [2]. No sinal de Stemmer, o profissional tenta pinçar a pele na base do segundo dedo do pé; no lipedema, em geral consegue, e o sinal é negativo. No sinal de Godet, ou cacifo, pressiona a pele contra o osso por pelo menos cinco segundos; no lipedema, em geral não fica depressão [1, 2].
Exames complementares servem para afastar outras causas de inchaço, como doenças do coração, dos rins, do fígado ou da tireoide e efeito de medicamentos [1].
O ultrassom pode acrescentar uma medida objetiva. Um estudo brasileiro com 89 mulheres mediu a espessura da pele e da gordura em quatro pontos padronizados das pernas e definiu valores de corte para o diagnóstico; a medida na frente da canela, a região pré-tibial, foi a de melhor desempenho [6]. Veja ultrassom no diagnóstico do lipedema.
Há ainda dois questionários validados no Brasil. O de rastreamento, com nove perguntas, foi testado em 109 mulheres e separou bem quem tinha e quem não tinha a doença, mas serve para levantar a suspeita, não para diagnosticar [10]. O QuASiL, traduzido e adaptado de um questionário publicado em alemão e inglês, tem 15 perguntas sobre sintomas e qualidade de vida, com notas de 0 a 10; na versão on-line, 96,4% das voluntárias o compreenderam integralmente [11]; o Consenso recomenda seu uso rotineiro para acompanhar a resposta ao tratamento [2]. A autoavaliação gratuita da ABL foi construída a partir desse trabalho brasileiro e ajuda a organizar os sintomas antes de uma consulta.
Estágios
O livro Propedêutica Vascular descreve quatro estágios [1]:
- Estágio 1: pele de aspecto normal e macia ao toque, com aumento da camada de gordura.
- Estágio 2: superfície da pele irregular, com retrações e massas de gordura.
- Estágio 3: gordura endurecida, nódulos grandes e acúmulos, sobretudo nas coxas e ao redor dos joelhos, com impacto na mobilidade.
- Estágio 4: lipolinfedema, a associação com linfedema, com sinal de Stemmer positivo.
A evolução não é obrigatória em todos os casos [1], e o estágio descreve a forma e a distribuição da gordura, não a intensidade dos sintomas: duas pessoas no mesmo estágio podem ter níveis de dor muito diferentes [2].
Tratamento
Não há cura conhecida. Todo tratamento tem como objetivo aliviar os sintomas e prevenir ou retardar a progressão, e o Consenso Brasileiro afirma que essa progressão pode ser atenuada com tratamento adequado e hábitos saudáveis [2].
Os pilares conservadores
O tratamento conservador é a primeira linha e continua importante mesmo depois de uma eventual cirurgia [2]. Ele reúne:
- Compressão, com peças adaptadas a cada pessoa.
- Terapia física descongestiva complexa, que combina cuidados com a pele, drenagem linfática manual, exercícios e compressão, e pode ser útil já no estágio inicial.
- Exercício de baixo impacto, como atividades na água, caminhada e ioga, e fortalecimento muscular.
- Orientação nutricional individualizada. As dietas anti-inflamatória e cetogênica mostraram melhora dos sintomas em parte das pacientes.
- Controle do peso quando há obesidade, acompanhado pela relação entre cintura e altura.
- Apoio psicológico e social.
Todos esses pontos constam do Consenso Brasileiro [2]. Sobre alimentação, uma meta-análise de 7 estudos com 329 mulheres com lipedema encontrou redução de peso, de medidas, de gordura corporal e de dor com dietas cetogênicas; os estudos ainda são pequenos e curtos, sem ensaios duplo-cegos, e mais pesquisa é necessária [12].
Cirurgia, com critérios
A lipoaspiração com preservação dos vasos linfáticos pode ser considerada quando há impacto importante no bem-estar físico. O Consenso Brasileiro estabelece critérios: a decisão não deve ser tomada antes de um ano de tratamento clínico, salvo em estágios avançados com mobilidade comprometida; deve ser compartilhada entre médico clínico, cirurgião e paciente; tem como objetivo principal a mobilidade e, em segundo lugar, os sintomas, e não a estética; e deve ser feita em centros com experiência na doença [2].
Uma meta-análise com 451 pacientes de 7 estudos encontrou melhora de dor, inchaço, roxos, mobilidade e qualidade de vida após a lipoaspiração. Ainda assim, mais da metade das pacientes (51% nos estudos que informaram esse dado) continuava precisando de tratamento conservador, e os autores concluíram que a cirurgia deve ser vista como terapia complementar, e não como cura [13]. Mais detalhes em cirurgia e lipoaspiração no lipedema.
O que não funciona ou não tem prova
- Remédio para lipedema. Não há, hoje, evidência de eficácia de nenhum medicamento no tratamento do lipedema [7].
- Gestrinona. Uma revisão sistemática não encontrou nenhum estudo que sustente seu uso no lipedema [14].
- Diurético contínuo. O uso prolongado deve ser evitado, porque não trata a causa do inchaço do lipedema [15].
- Cirurgia bariátrica como solução do lipedema. Ela pode ser indicada para tratar a obesidade, mas os sintomas do lipedema tendem a persistir depois dela [2, 7].
- Pacotes de tratamentos caros sem evidência. O Consenso considera inadequado induzir pacientes a múltiplos tratamentos custosos sem comprovação científica [2].
Mito comum: “se emagrecer, resolve”. Emagrecer é importante para a saúde, mas a perda de peso no lipedema ocorre sobretudo no tronco e não desfaz a desproporção das pernas [1].
Vida diária
Compressão. Com a progressão, usar meias pode ficar difícil por causa da desproporção dos membros e do desconforto, que aumenta em fases de maior inflamação; por isso a peça precisa ser ajustada a cada pessoa [2].
Movimento. Exercício de baixo impacto e fortalecimento, sobretudo da musculatura posterior da coxa, ajudam na mobilidade e nos sintomas, de preferência com profissional de educação física que conheça o lipedema. Longos períodos parados, inclusive viagens de avião, podem agravar os sintomas [2].
Alimentação. A orientação nutricional ajuda a controlar o peso, reduzir sintomas e melhorar a resposta aos demais tratamentos. Deve ser individual e combinada entre equipe e paciente, porque divergência entre profissionais atrapalha a adesão [2].
Sono. A dor do lipedema pode atrapalhar o sono e o descanso [2]; vale falar disso nas consultas.
Saúde mental. O lipedema pode afetar a saúde mental e a qualidade de vida, e o Consenso recomenda apoio psicológico e social como parte do tratamento, incluindo terapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio e técnicas de manejo do estresse [2]. No estudo brasileiro de prevalência, depressão e ansiedade foram mais frequentes entre as mulheres com sintomas de lipedema [4]. Numa pesquisa internacional com 1.070 mulheres, 40% tinham sintomas de depressão moderada a grave, mas menos de 10% haviam procurado ajuda profissional [16]. Há orientações práticas em lipedema, saúde mental e autoestima.
Direitos e acesso
A Organização Mundial da Saúde incluiu o lipedema na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças, a CID-11, com o código EF02.2 [5]. O que isso significa na prática está na página sobre o CID do lipedema, e cobertura por planos, atendimento pelo SUS e outros direitos estão em lipedema: plano de saúde, SUS e direitos. Guardar relatórios médicos, exames e o registro dos tratamentos já feitos facilita qualquer pedido.
Onde buscar informação confiável
O Registro Científico do Lipedema mostra, pergunta por pergunta, o grau de certeza do que se sabe e o que ainda é lacuna. A comunidade de apoio da ABL é gratuita e moderada, e a lista de profissionais indicados está organizada por estado. Ao ler sobre lipedema em qualquer lugar, desconfie de promessa de cura ou de resultado rápido, pergunte se quem indica também vende, lembre que depoimento não é evidência e verifique se o estudo citado foi feito em pessoas com lipedema.
Como a família ajuda
Mulheres com lipedema relatam mais estigma do que a população geral, e mais apoio social se associa a melhor bem-estar emocional [17]. Na pesquisa internacional citada acima, 91,3% relataram comentários ofensivos ou inadequados de familiares [16]. Entender que não se trata de falta de força de vontade é o primeiro passo; o guia para familiares de quem tem lipedema trata disso em detalhe.
Perguntas frequentes
O lipedema tem cura?
Não há cura conhecida. O tratamento busca aliviar os sintomas e prevenir ou retardar a progressão, com medidas conservadoras como base e cirurgia apenas em casos selecionados.
Se eu emagrecer, o lipedema desaparece?
Não. Emagrecer faz bem à saúde, mas no lipedema a perda de peso acontece principalmente no tronco e não corrige a desproporção das pernas.
Existe exame que confirma o lipedema?
Não existe exame de sangue, de imagem ou genético aprovado para confirmar a doença. O diagnóstico é clínico; o ultrassom pode acrescentar uma medida objetiva.
Homens podem ter lipedema?
Sim, mas é raro. Os casos masculinos descritos costumam ter alguma alteração hormonal associada e seguem o mesmo padrão clínico visto nas mulheres.
Esta cartilha substitui a consulta?
Não. A ABL não faz atendimento clínico, não emite diagnóstico e não prescreve tratamento; a avaliação deve ser feita por profissional de saúde.
Referências
- Amato ACM. Propedêutica Vascular. São Paulo: Amato – Instituto de Medicina Avançada; 2024. ISBN 978-65-980001-0-3.
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Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.