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O que melhora primeiro no tratamento do lipedema

O que melhora primeiro no tratamento do lipedema

Quem começa a tratar o lipedema costuma perguntar quando vai sentir diferença, e em quê. A dor passa antes do inchaço? Os roxos somem? E, quando o quadro volta a piorar, o que aparece primeiro? Até há pouco, a literatura não respondia a essas perguntas sintoma por sintoma: os estudos mediam o conjunto — um escore total, a qualidade de vida, o volume da perna —, e não a ordem em que cada queixa cede [1].

Um estudo brasileiro publicado em 2026 no Jornal Vascular Brasileiro olhou exatamente para isso, analisando 1.300 pacientes com lipedema em tratamento conservador [1]. Esta página, produzida pela Associação Brasileira de Lipedema, resume o que foi feito, o que foi encontrado e, com o mesmo peso, o que o estudo não permite concluir. Entre os autores está o presidente da Associação; por isso mesmo, as limitações que os próprios pesquisadores apontam aparecem aqui por inteiro.

Como o estudo foi feito

Foi um estudo retrospectivo: os pesquisadores analisaram registros que já existiam, sem interferir no tratamento. Entraram pacientes com diagnóstico clínico de lipedema feito por cirurgião vascular, segundo os critérios do Consenso Brasileiro, atendidas em um único centro especializado em cirurgia vascular, em São Paulo [1].

A ferramenta de medida foi o QuASiL, questionário de sintomas do lipedema traduzido, adaptado e validado no Brasil a partir de um instrumento alemão, criado justamente para quantificar sintomas e acompanhar a evolução do tratamento [2]. Cada pergunta recebe uma nota de 0 a 10 [1]. Mais detalhes em QuASiL: o questionário brasileiro validado para sintomas de lipedema.

O estudo analisou 13 sintomas do questionário: dor, sensibilidade ao toque, tendência a hematomas, sensação de pressão ou tensão, calor ou queimação, sensação de frio, cãibras, peso nas pernas, cansaço, inchaço, irritação da pele, coceira e dificuldade para caminhar. As duas perguntas restantes, sobre qualidade de vida global e insatisfação com a aparência, ficaram para outro trabalho [1].

Dos 3.206 pacientes com registros, 1.856 tinham respondido o questionário uma única vez e 50 tinham acompanhamento curto demais. Ficaram 1.300 pacientes que responderam ao menos duas vezes, com intervalo mínimo de 14 dias. A mediana entre a primeira e a última resposta foi de 181 dias — cerca de seis meses —, com variação de duas semanas a quase cinco anos. Quem fez lipoaspiração durante o período foi excluído [1].

O tratamento foi o conservador oferecido na rotina do serviço: compressão, drenagem linfática manual, exercício supervisionado e orientação alimentar, em combinações que variaram de pessoa para pessoa. Os protocolos exatos, a adesão de cada paciente e o estágio da doença não estavam registrados no banco de dados [1]. Esse detalhe pesa na interpretação, como se verá adiante.

Para chegar à ordem dos sintomas, os pesquisadores não confiaram em um cálculo só. Fizeram seis análises diferentes — quanto cada sintoma caiu em proporção, quanto sobrou dele no melhor momento, quanto tempo levou para cair pela metade, em que ordem voltou nas fases de piora, qual sintoma durava mais que o outro na comparação direta e se a ordem se repetia de paciente para paciente — e combinaram os resultados em uma classificação de consenso [1].

Os sintomas não melhoram juntos

O primeiro achado é simples: os 13 sintomas não cederam ao mesmo tempo nem na mesma medida. Nas pacientes que tinham os 13 sintomas ativos no início, a ordem de melhora se repetiu de forma consistente (teste de Friedman, p < 0,001), e a mesma ordem apareceu nas seis análises [1]. No conjunto do grupo, os 13 sintomas melhoraram, mas em ritmos diferentes, formando dois blocos.

Os que respondem mais. Irritação da pele, coceira, dificuldade para caminhar, calor ou queimação, cãibras e sensação de frio. Entre as pacientes com melhora relevante, a redução média desses sintomas ficou entre 58% e 66%. A irritação da pele teve a maior queda (66,4%), seguida da dificuldade para caminhar (62,6%) e da coceira (62,0%) [1].

Os que demoram mais. Hematomas, inchaço, sensibilidade ao toque, peso nas pernas, cansaço, dor e sensação de pressão ou tensão. Nesse grupo, a redução média ficou entre 39% e 49% [1].

A fronteira entre os dois blocos foi a única separação estatisticamente firme da classificação. Dentro de cada bloco, a posição de cada sintoma deve ser lida como aproximada [1]. Não faz sentido, portanto, discutir se o cansaço vem antes ou depois do peso nas pernas; o que o estudo sustenta é a divisão em dois grupos.

O que demora mais: hematomas e inchaço

Os dois sintomas mais persistentes foram os hematomas — a tendência a ficar roxa com facilidade — e o inchaço. Alguns números ajudam a dimensionar a diferença [1]:

  • Entre as 660 pacientes com melhora relevante do escore total, os hematomas tiveram a menor redução média (39,1%) e a menor taxa de desaparecimento completo (9,3%). A irritação da pele, no outro extremo, desapareceu por completo em 41,9%.
  • Entre as 335 pacientes que mais melhoraram, inchaço e hematomas foram os sintomas que mais sobraram, com nota média de 3,9 em 10 cada; 67,2% e 62,7% delas, respectivamente, ainda marcavam 3 ou mais. A dificuldade para caminhar, em comparação, ficou em 1,1.
  • Na análise do tempo em dias, feita com quem teve quatro ou mais avaliações, a mediana para o hematoma cair à metade foi de 546 dias, cerca de 18 meses. Para a sensibilidade ao toque foi de 381 dias; para o inchaço, de 368. No outro extremo, calor ou queimação levou 203 dias, sensação de frio 205 e coceira 207.

A explicação proposta pelos autores é que o hematoma fácil reflete fragilidade dos pequenos vasos, uma alteração estrutural do tecido, que tende a se desfazer mais devagar do que sintomas ligados a mediadores inflamatórios, como calor, coceira e irritação da pele [1]. A fragilidade capilar maior no lipedema já tinha sido medida: num estudo húngaro, a sucção padronizada da pele da coxa provocou em média 13,38 e 13,44 petéquias (perna direita e esquerda) em 15 mulheres com lipedema, contra 2,47 e 2,33 em 15 mulheres com obesidade e IMC semelhante [3]. A ligação entre essa fragilidade e a lentidão da melhora, porém, é interpretação dos autores; o estudo de 1.300 pacientes não mediu os vasos.

Mais lento não quer dizer que não melhora

Talvez este seja o ponto mais útil para quem está em tratamento. Mesmo o sintoma mais resistente melhorou: a redução média dos hematomas foi de 39,1%, e metade das pacientes chegou a pelo menos 50% de melhora nesse item. Entre as que mais responderam, 37,3% tiveram desaparecimento completo ou quase completo dos hematomas [1].

Os autores levantam, como hipótese a ser testada, que hematomas que persistem depois de algumas semanas de tratamento conservador não deveriam ser lidos, sozinhos, como falha do tratamento [1]. Um estudo menor e bem mais curto aponta na mesma direção: cinco dias de fisioterapia descongestiva complexa — drenagem linfática, compressão pneumática, enfaixamento e caminhada — reduziram o número médio de petéquias no teste de fragilidade capilar de 13,95 para 8,78, enquanto no grupo que usou apenas hidratante o número ficou praticamente igual (de 12,38 para 12,15) [4]. Foram 38 mulheres e apenas cinco dias de tratamento, sem acompanhamento posterior, o que limita o alcance do achado.

Quando piora, o que volta primeiro

O lipedema é uma doença crônica, com fases melhores e piores. O estudo também olhou para essas fases: em 145 pacientes com quatro ou mais avaliações e um período de piora identificável, os pesquisadores registraram em que ordem os sintomas, antes controlados, voltaram a subir [1].

O inchaço foi o primeiro a reaparecer, em 81,6% das pacientes em que estava controlado. Logo depois vieram a sensação de pressão ou tensão (72,7%) e os hematomas (68,3%). Dificuldade para caminhar e coceira foram os últimos [1].

Dois comportamentos chamaram a atenção. A sensação de pressão ou tensão melhorou mais do que hematomas e inchaço (redução média de 48,9%, contra 39,1% e 41,7%), mas esteve entre as primeiras a voltar quando o quadro piorou. A sensibilidade ao toque fez o contrário: demorou a melhorar, mas, uma vez controlada, foi das últimas a reaparecer [1]. Os autores sugerem que inchaço e pressão possam funcionar como sinais precoces de piora e deixam claro que isso precisa ser avaliado em estudos prospectivos antes de virar orientação clínica [1].

O que o estudo não permite concluir

A leitura honesta deste trabalho depende de conhecer seus limites, e os próprios autores os listam [1]:

  • Não prova que o tratamento causou a melhora. É um estudo observacional, retrospectivo e sem grupo de comparação. Ele descreve em que ordem os sintomas mudaram, não quanto dessa mudança se deve a cada terapia.
  • Não diz qual tratamento funciona melhor. Os esquemas variaram, e protocolos e adesão não foram registrados. Também não se sabe se a ordem muda conforme o tipo de tratamento ou o estágio da doença.
  • Os percentuais de melhora tendem a ser otimistas. Para cada paciente, a análise principal comparou o pior momento do início com o melhor momento do final. Isso não distorce a ordem entre os sintomas, que é o objetivo do trabalho, mas aumenta a magnitude absoluta da melhora. Os números devem ser lidos como a melhor resposta alcançada, e não como a melhora média esperada. Refeita com a primeira e a última avaliação, a análise produziu praticamente a mesma ordem (correlação de 0,945).
  • Acompanhamento curto e irregular. O tempo mediano de acompanhamento foi de seis meses, com intervalos muito variáveis, e cada paciente teve, em mediana, duas avaliações. As análises de tempo e de recaída usaram subgrupos menores.
  • Sintomas relatados pela própria paciente. O QuASiL é respondido por quem tem os sintomas e está sujeito a vieses de memória e de resposta.
  • Um único centro. Todas as pacientes foram diagnosticadas no mesmo serviço, o que padroniza o critério, mas limita a generalização.

Vale registrar ainda que, pelo critério do estudo, pouco mais da metade das pacientes (660, ou 50,8%) teve melhora relevante do escore total, definida como queda de mais de 10 pontos [1]. Os autores descrevem suas conclusões como exploratórias e geradoras de hipóteses.

O que isso muda para quem convive com lipedema

O estudo não traz tratamento novo. O que ele oferece é uma expectativa mais realista sobre o caminho do tratamento conservador, que o Consenso Brasileiro de Lipedema recomenda priorizar. O consenso registra relatos de redução da dor e da sensibilidade com compressão, fisioterapia descongestiva complexa, mudanças na alimentação e exercício de baixo impacto, com efeitos de tamanho e duração variáveis [5].

Algumas leituras são possíveis, sempre lembrando que se trata de padrões de grupo, e não de previsões para cada pessoa:

  • Melhora parcial no começo é compatível com o que foi observado. Se irritação da pele, coceira ou dificuldade para caminhar cedem antes, e os roxos e o inchaço demoram mais, isso corresponde ao que se viu em 1.300 pacientes.
  • Hematomas e inchaço pedem tempo. Nos dados do estudo, são os que mais demoram e os que mais sobram, mesmo entre as pacientes que mais melhoraram.
  • Registrar os sintomas separadamente ajuda a enxergar a evolução. Um questionário como o QuASiL, repetido ao longo do tempo, mostra o caminho de cada queixa, e não só uma impressão geral. A forma de fazer esse registro pode ser combinada com o médico que acompanha o tratamento.
  • Inchaço e pressão voltando merecem ser relatados. Ainda como hipótese, os autores sugerem que sejam os primeiros sinais de uma fase de piora. É uma informação útil para levar à consulta.

Nada disso substitui a avaliação individual. O lipedema é uma doença crônica [1] — a pergunta sobre cura é discutida em o lipedema tem cura? —, e entender o ritmo de cada sintoma ajuda a não desistir cedo nem esperar de uma vez o que costuma vir aos poucos. Para o conjunto das queixas, veja quais são os sintomas do lipedema; sobre a dor, dor no lipedema; sobre as opções sem cirurgia, tratamento conservador do lipedema. Para encontrar quem acompanhe o tratamento, o guia qual médico trata lipedema ajuda a começar.

Perguntas frequentes

Qual sintoma do lipedema melhora primeiro com o tratamento?

No estudo com 1.300 pacientes em tratamento conservador, irritação da pele, coceira, dificuldade para caminhar, calor ou queimação, cãibras e sensação de frio foram os que mais melhoraram, com redução média entre 58% e 66%; na análise de tempo, calor ou queimação, sensação de frio e coceira foram os mais rápidos a cair à metade. Hematomas e inchaço foram os mais lentos.

Quanto tempo os hematomas do lipedema levam para melhorar?

No subgrupo acompanhado em dias, a mediana para os hematomas caírem à metade foi de 546 dias, cerca de 18 meses. Mesmo sendo o sintoma mais lento, eles melhoraram: a redução média foi de 39,1%. É um dado de grupo, não uma previsão individual.

Se os roxos continuam, o tratamento não está funcionando?

Não necessariamente. Os autores levantam a hipótese de que hematomas persistentes após algumas semanas de tratamento conservador não devem ser lidos, sozinhos, como falha, porque são o sintoma que mais demora a ceder. Quem avalia a resposta ao tratamento é o médico que acompanha o caso.

Quais sintomas do lipedema voltam primeiro quando ele piora?

Nas fases de piora analisadas, o inchaço e a sensação de pressão ou tensão foram os primeiros a reaparecer, seguidos dos hematomas. Os autores sugerem que possam ser sinais precoces de piora, o que ainda precisa ser confirmado em estudos prospectivos.

O estudo mostra qual tratamento é o melhor para o lipedema?

Não. O tratamento conservador variou entre as pacientes e não foi registrado em detalhe. O estudo descreve a ordem em que os sintomas melhoraram, sem atribuir essa melhora a uma terapia específica.

Referências

  1. Amato ACM, Amato JLS, Benitti DA. Order of resolution and recurrence of inflammatory symptoms in lipedema: a longitudinal study of 1,300 patients. Jornal Vascular Brasileiro. 2026;25:e20260056. doi:10.1590/1677-5449.202600562
  2. Amato ACM, Amato FCM, Benitti DA, Santos RV. Translation, cultural adaptation, and validation of a lipedema symptoms questionnaire. J Vasc Bras. 2020;19:e20200049. doi:10.1590/1677-5449.200049 PMID: 34178078
  3. Szolnoky G, Ifeoluwa A, Tuczai M, Varga E, Varga M, Dósa-Rácz É, Kemény L. Measurement of capillary fragility: a useful tool to differentiate lipedema from obesity? Lymphology. 2017;50(4):203-209.
  4. Szolnoky G, Nagy N, Kovács RK, Dósa-Rácz É, Szabó A, Bársony K, Balogh M, Kemény L. Complex decongestive physiotherapy decreases capillary fragility in lipedema. Lymphology. 2008;41(4):161-166.
  5. Amato ACM, Peclat APRM, Kikuchi R, Souza AC, Silva MTB, Oliveira RHP, Benitti DA, Oliveira JCP. Brazilian Consensus Statement on Lipedema using the Delphi methodology. J Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301832 PMID: 39949954

Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.

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