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Sinal do manguito (efeito bracelete)

No lipedema, a gordura se acumula nas pernas, mas costuma parar acima do tornozelo e deixar o pé com aparência normal. O resultado é uma mudança brusca de contorno nessa altura, como se a perna terminasse num punho de camisa ou numa pulseira. Esse achado é chamado de sinal do manguito, “efeito bracelete” ou sinal do coxim gorduroso [1]. É um dos sinais que ajudam a diferenciar o lipedema da obesidade e do linfedema.

De onde vêm os nomes

Como descrito no livro Propedêutica Vascular, no capítulo dedicado ao lipedema, a gordura subcutânea se deposita acima dos maléolos — os ossinhos salientes do tornozelo — numa distribuição comparada a “calças largas”. Como os pés são poupados, surge uma mudança abrupta entre as pernas alargadas e os pés de aparência normal, principalmente nas fases mais avançadas [1]. O livro registra também o nome em inglês, sinal do cuff, traduzido como manguito — o punho da manga [1].

Outros autores usam imagens parecidas. Uma revisão norte-americana fala em “ombro invertido” ou efeito de “bracelete” no tornozelo [2]. Uma revisão alemã chama o achado de “degrau” e compara as pernas a uma calça estilo harém, franzida por um elástico [3].

Como o profissional avalia o sinal

A avaliação começa pela inspeção: o volume e o contorno das duas pernas, comparados entre si, e a passagem da perna para o pé. Segue com a palpação, que inclui procurar inchaço no dorso do pé e pesquisar o sinal de Stemmer [1]. No livro, a fotografia que ilustra o sinal do manguito mostra, na mesma paciente, o sinal de Stemmer negativo e a nítida separação entre tornozelo e pé [1]. Mais sobre a região está em lipedema no tornozelo.

O sinal é visual, e a leitura dele depende do formato do corpo, do peso e de outras condições presentes. Por isso é interpretado dentro do exame completo, e não isoladamente.

O que o sinal significa

O livro afirma que o inchaço que poupa o pé é um sinal importante para distinguir o lipedema da obesidade comum [1], e o Consenso Brasileiro de Lipedema registrou que a doença normalmente poupa mãos e pés [4]. Os pés poupados também são descritos como uma das características mais importantes para diferenciar o lipedema do linfedema [5].

Num estudo espanhol que comparou 138 mulheres com lipedema e 111 com linfedema, os pés estavam poupados em 93,5% das pacientes com lipedema e em 9,0% das pacientes com linfedema. Os pés poupados ficaram entre as três características retidas no modelo final de decisão, ao lado das equimoses e da desproporção entre tronco e pernas [5]. A revisão alemã trata o degrau como critério morfológico central e inclui sua ausência entre os achados que afastam um lipedema típico [3].

Nos braços, o sinal pode aparecer entre o antebraço e o punho, porque o lipedema dos braços poupa as mãos [1].

Por que a gordura para no tornozelo ainda não se sabe [5]. Os autores da Mayo Clinic, em 1951, especularam que a pressão contínua de sapatos apertados explicaria o fenômeno, e relataram o caso de quem usou por anos sapatos de cano alto, à moda antiga, e não tinha acúmulo de gordura nem edema na área coberta por eles [6]. É uma hipótese histórica, não uma explicação confirmada.

Como ajuda a separar lipedema, linfedema e obesidade

No quadro comparativo do livro, o envolvimento dos pés não ocorre no lipedema, exceto no lipolinfedema; é presente no linfedema; e na obesidade não é habitual, embora ocorra às vezes [1]. No linfedema das pernas, o inchaço costuma começar pelo dorso do pé, e a perna tende a ficar cilíndrica, sem o degrau [1]. Comparação completa em lipedema, obesidade e linfedema.

Quando o lipedema evolui para lipolinfedema, aparecem o inchaço no dorso do pé e o sinal de Stemmer positivo [1]. Com o pé também aumentado, a transição no tornozelo tende a ficar menos nítida — e é por isso que um pé que começa a inchar merece reavaliação.

Consequências práticas

O degrau não aparece só no tornozelo. Com a progressão, formam-se coxins de gordura na face interna dos joelhos [1], e a revisão alemã descreve degraus também nos joelhos e nos punhos [3]. Isso pesa na escolha da terapia compressiva: segundo essa revisão, quando os degraus se formam nas articulações, costuma ser necessária malha de tecelagem plana, porque meias circulares de baixa rigidez podem apertar a região da articulação e causar estase [3]. A definição da peça é feita com o profissional.

Limitações

O sinal do manguito não é medido, é observado, e por isso varia com o formato das pernas e com quem examina. A revisão alemã lembra que os achados do lipedema precisam ser diferenciados das variações constitucionais do formato normal das pernas [3]. O degrau é mais evidente nas fases avançadas [1], de modo que, num quadro inicial, sua ausência pede que os demais achados sejam pesados com cuidado. E ele pode se apagar quando o pé passa a inchar. Nenhum desses sinais, sozinho, fecha o diagnóstico, como explicado em como é feito o diagnóstico do lipedema.

Perguntas frequentes

O que é o sinal do manguito no lipedema?

É a mudança brusca de contorno na altura do tornozelo, entre a perna alargada pela gordura e o pé de aparência normal. Também é chamado de efeito bracelete ou sinal do coxim gorduroso.

Toda pessoa com lipedema tem o sinal do manguito?

Não necessariamente. Os pés poupados são muito frequentes — 93,5% num estudo espanhol —, mas o degrau fica mais evidente nas fases avançadas e pode ser discreto no início.

Pé inchado exclui lipedema?

Não. No lipolinfedema, estágio avançado, o dorso do pé incha e o sinal de Stemmer se torna positivo. Um pé que passa a inchar pede avaliação para identificar o que mudou.

O sinal do manguito aparece nos braços?

Pode aparecer, entre o antebraço e o punho, porque o lipedema dos braços costuma poupar as mãos.

Referências

  1. Amato ACM. Propedêutica Vascular. São Paulo: Amato – Instituto de Medicina Avançada; 2024. ISBN 978-65-980001-0-3.
  2. Herbst KL. Rare adipose disorders (RADs) masquerading as obesity. Acta Pharmacol Sin. 2012;33(2):155-72. doi:10.1038/aps.2011.153 PMID: 22301856
  3. Reich-Schupke S, Altmeyer P, Stücker M. Thick legs – not always lipedema. J Dtsch Dermatol Ges. 2013;11(3):225-233. doi:10.1111/ddg.12024 PMID: 23231593
  4. Amato ACM, Peclat APRM, Kikuchi R, de Souza AC, Silva MTB, Oliveira RHP, Benitti DA, Oliveira JCP. Consenso Brasileiro de Lipedema pela metodologia Delphi. J Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301831
  5. Forner-Cordero I, Muñoz-Langa J, Morilla-Bellido L. Building evidence for diagnosis of lipedema: using a classification and regression tree (CART) algorithm to differentiate lipedema from lymphedema patients. Int Angiol. 2025;44(1):71-9. doi:10.23736/S0392-9590.25.05207-1
  6. Wold LE, Hines EA Jr, Allen EV. Lipedema of the legs: a syndrome characterized by fat legs and edema. Ann Intern Med. 1951;34(5):1243-1250. doi:10.7326/0003-4819-34-5-1243 PMID: 14830102

Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.