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Gestrinona para lipedema: o que a ciência realmente mostra

Gestrinona para lipedema: o que a ciência realmente mostra

Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL

Índice

Apresentação geral: o que é este estudo e por que importa

Nos últimos anos, uma substância chamada gestrinona tem sido oferecida a mulheres com lipedema — muitas vezes na forma de implantes subcutâneos — como se fosse um tratamento eficaz para a doença. O problema? Nenhum estudo científico jamais testou isso.

Foi justamente para verificar essa situação que os médicos Alexandre Amato, Juliana Amato e Daniel Benitti realizaram uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Cureus. Esse tipo de estudo é considerado o mais rigoroso na ciência: os pesquisadores vasculharam todas as bases de dados médicas do mundo — PubMed, MEDLINE, Cochrane, LILACS — além de registros de ensaios clínicos e documentos de diretrizes de sociedades médicas, buscando qualquer pesquisa que tivesse testado a gestrinona no tratamento do lipedema.

O resultado foi chocante pela ausência: após analisar todos os registros identificados, os autores não encontraram um único estudo — nem ensaio clínico, nem pesquisa observacional, nem sequer um relato de caso — que avaliasse a gestrinona para o lipedema. Zero. Nada.

Isso importa muito porque, na medicina ética, um tratamento só deve ser usado quando há evidências de que ele funciona e é seguro. Oferecer um hormônio potente a mulheres que já sofrem com uma doença crônica, sem qualquer base científica, é um risco real — e esse estudo deixa isso em preto e branco.

O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas

O lipedema é uma doença crônica e progressiva que afeta quase exclusivamente mulheres. Ela se caracteriza pelo acúmulo anormal e simétrico de gordura subcutânea, principalmente nas pernas, coxas e quadris — uma gordura que não responde a dieta nem a exercício físico. As mulheres com lipedema convivem todos os dias com dor, sensibilidade exagerada ao toque, hematomas fáceis e uma desproporção corporal que frequentemente é confundida com obesidade comum.

Estima-se que o lipedema afeta cerca de 12,3% das mulheres — uma prevalência altíssima para uma doença tão pouco conhecida. Por décadas foi mal diagnosticada, mal compreendida e frequentemente descartada por profissionais de saúde que não reconheciam seus sinais.

Diante desse cenário de sofrimento e de lacunas no tratamento, muitas pacientes ficam vulneráveis a promessas de soluções rápidas. A gestrinona — um esteroide sintético aprovado originalmente apenas para tratar endometriose por via oral — passou a ser divulgada em redes sociais e consultórios como uma “novidade” para o lipedema, especialmente na forma de implantes subcutâneos. Pacientes desesperadas por alívio acabam aceitando um tratamento cuja segurança e eficácia nunca foram testadas para essa finalidade.

O lipedema merece tratamentos sérios, testados e seguros. E as mulheres que vivem com ele merecem informação honesta.

A descoberta: o que os pesquisadores encontraram

A equipe de pesquisa vasculhou quatro grandes bancos de dados médicos internacionais (PubMed, MEDLINE, Cochrane Library e LILACS), dois registros de ensaios clínicos (ClinicalTrials.gov e ReBEC), o Google Acadêmico e ainda analisou diretrizes clínicas de sociedades médicas do Brasil e do mundo. No total, 9 registros foram identificados e 8 foram cuidadosamente avaliados.

E o resultado? Nenhum estudo avaliou o uso de gestrinona no tratamento do lipedema. Nenhum ensaio clínico foi registrado para testar esse tratamento. Nenhum relato de caso foi publicado. Os artigos que mencionavam gestrinona e lipedema eram apenas textos teóricos, sem dados de pacientes reais — e alguns foram publicados em revistas consideradas predatórias, que cobram para publicar sem critérios científicos rigorosos.

Além disso, as principais sociedades médicas do Brasil já se posicionaram contra essa prática:

  • A Associação Brasileira de Lipedema publicou nota oficial contra o uso de gestrinona por “ausência de evidências científicas”
  • A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo (SBEM) afirma que “não há evidências de qualidade sobre a eficácia e segurança dos implantes de gestrinona”
  • A ANVISA não possui registros vigentes para a gestrinona no Brasil (as duas formulações orais foram canceladas em 2012 e 2014)
  • A gestrinona está na lista de substâncias proibidas pela WADA (Agência Mundial Antidoping) por suas propriedades anabólicas

O que isso muda na prática: implicações para pacientes

Se você tem lipedema e já ouviu falar da gestrinona como tratamento, este estudo traz uma mensagem clara e direta: não existe nenhuma evidência científica que justifique o uso desta substância para o lipedema. Isso não significa que a pesquisa tentou e falhou — significa que a pesquisa simplesmente nunca foi feita. Nenhum estudo testou se funciona. Nenhum estudo testou se é seguro.

Enquanto isso, a gestrinona é um esteroide com ação androgênica (masculinizante) e antiprogestagênica, cujos efeitos adversos conhecidos incluem alterações hepáticas, distúrbios cardiovasculares, alterações psiquiátricas e virilização em mulheres. Quando usada na forma de implantes subcutâneos, nem sequer existem estudos farmacocinéticos — ou seja, não se sabe como o corpo absorve, distribui ou elimina essa substância dessa forma.

O que a ciência recomenda de verdade para o lipedema? Os tratamentos com evidências reais são:

  • Terapia compressiva (meias e bandagens compressivas)
  • Terapia descongestiva complexa (drenagem linfática, cuidados com a pele, exercícios e compressão)
  • Exercícios físicos adaptados (natação, hidroginástica, caminhada)
  • Orientação nutricional (dieta anti-inflamatória)
  • Suporte psicológico
  • Lipoaspiração com preservação linfática em casos selecionados

Exija tratamentos que tenham sido testados. Você merece isso.

Você sabia que…?

Você sabia que a gestrinona está na lista de substâncias proibidas no esporte?

Isso mesmo. A gestrinona — o hormônio que tem sido oferecido como “tratamento” para lipedema em implantes subcutâneos — é classificada pela Agência Mundial Antidoping (WADA) como substância proibida, justamente porque tem propriedades anabólicas: ela estimula o crescimento muscular e pode promover virilização em mulheres (engrossamento da voz, crescimento de pelos, alterações no clitóris).

Essa substância foi aprovada originalmente apenas para uso oral no tratamento de endometriose. No Brasil, até mesmo essa formulação oral foi cancelada pela ANVISA em 2012 e 2014 — ou seja, não existe nenhum produto com gestrinona regularizado pela vigilância sanitária brasileira atualmente.

E quando é composta em farmácias de manipulação para ser implantada sob a pele? Aí os riscos são ainda maiores: não há nenhum estudo sobre como o corpo absorve ou elimina a gestrinona por esse caminho. Os médicos que a prescrevem para lipedema estão usando uma substância sem registro, sem evidência e proibida no esporte — em pacientes que confiam neles.

A ciência ainda não descobriu tudo sobre o lipedema. Mas ela sabe com certeza que a gestrinona não é a resposta. Não ainda — e talvez nunca seja.

Referência científica

Amato AC, Amato JS, Benitti D. Lack of Scientific Evidence for the Use of Gestrinone in the Treatment of Lipedema: A Systematic Review. Cureus. 2025. DOI: 10.7759/cureus.97213


Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).

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