Pular para o conteúdo

Sinal de Stemmer (sinal de Kaposi-Stemmer)

O sinal de Stemmer é uma das manobras mais simples do exame de quem tem inchaço nas pernas. O profissional tenta pinçar e levantar uma prega de pele no dorso do pé, na base do segundo dedo. Quando a pele está espessada e não se deixa pregar, o sinal é positivo e aponta para linfedema. No lipedema sem comprometimento linfático ele costuma ser negativo, porque a doença poupa os pés. Como descrito no livro Propedêutica Vascular, no capítulo sobre o exame do paciente com doença linfática, é um sinal útil justamente para diferenciar linfedema de lipedema [1].

De onde vem o nome

Robert Stemmer descreveu o sinal em 1976 como forma de reconhecer cedo o linfedema e de diferenciá-lo do edema de origem venosa. Uma descrição parecida já havia sido feita em 1887 por Móric Kaposi, e por isso o nome composto, sinal de Kaposi-Stemmer [1].

Com os anos, o sinal passou a ser descrito de maneiras diferentes: impossibilidade de pregar a pele do dorso do segundo dedo, dificuldade para pregar uma pele espessada, dedos com formato “de caixa”, dobras endurecidas. A versão que se mostrou capaz de prever uma linfocintilografia alterada — o exame que mostra o trajeto da linfa — é a impossibilidade de pregar a pele da base do segundo dedo por espessamento da pele [1].

Como o profissional pesquisa o sinal

O sinal de Stemmer faz parte da palpação, ao lado da pesquisa de edema pelo sinal do cacifo, da observação do inchaço no dorso do pé, da elasticidade da pele e da espessura do tecido sob ela [1]. Os dois pés são examinados e comparados.

A escolha do pé tem motivo. No linfedema dos membros inferiores, o aumento de volume costuma começar pelo dorso do pé, e é ali que a pele espessada aparece primeiro [1].

Não é um teste para fazer sozinho em casa. O resultado depende de técnica e de interpretação — o próprio fato de o sinal ter sido descrito de várias formas mostra isso — e só tem valor junto com a história clínica e o restante do exame, como explicado em como é feito o diagnóstico do lipedema.

Positivo, negativo e duvidoso

Positivo é quando a prega não se forma ou se forma com dificuldade, por pele espessada. É considerado um sinal de alta especificidade: quando presente, fala a favor de comprometimento linfático [1].

Negativo é quando a pele forma uma prega normal. O sinal tem baixa sensibilidade, e um resultado negativo não descarta linfedema: ele pode faltar em linfedemas que começam na raiz da coxa, em hipoplasia linfática proximal ou quando há compressão por tumor no eixo ilíaco-cava, na pelve e no abdome [1]. Uma revisão alemã lembra que o sinal pode faltar no linfedema de predomínio proximal, geralmente após retirada de linfonodos da virilha em tratamento de câncer [2].

Duvidoso também existe. Numa coorte espanhola de 1.803 mulheres com lipedema, o sinal foi registrado como positivo em 7,7% e como duvidoso em 3,5% [3].

O que o sinal mostra no lipedema

No lipedema, os pés são poupados, exceto no estágio avançado de lipolinfedema, quando o inchaço do pé aparece por insuficiência linfática secundária. Por isso o sinal de Stemmer é negativo no lipedema puro e pode se tornar positivo com a progressão, junto com o inchaço do dorso do pé [1]. O Consenso Brasileiro de Lipedema registrou a mesma posição: o sinal de Kaposi-Stemmer geralmente é negativo no lipedema [4].

Os números confirmam a regra e mostram as exceções. Num estudo espanhol que comparou 138 mulheres com lipedema e 111 com linfedema, o sinal foi positivo em 13,8% do primeiro grupo e em 88,3% do segundo [5].

Um sinal positivo em quem tem lipedema é motivo para procurar comprometimento linfático, mas não é prova dele. Num estudo com 83 mulheres com lipedema avaliadas por linfocintilografia, a presença do sinal de Stemmer não se relacionou com o grau de alteração no exame, e os autores concluíram que pacientes com lipedema podem ter sinal positivo e/ou alterações linfáticas em qualquer estágio [6].

Como ajuda a separar lipedema, linfedema e obesidade

No quadro comparativo do livro, o sinal de Stemmer é negativo no lipedema, positivo no linfedema e negativo na obesidade [1]. Ele ajuda, portanto, a separar lipedema de linfedema, mas não separa lipedema de obesidade. Para essa segunda distinção pesam outros achados, como desproporção entre tronco e pernas, dor e roxos fáceis [1] — ver lipedema, obesidade e linfedema.

Mesmo entre lipedema e linfedema, o sinal não trabalha sozinho. No estudo espanhol que comparou os dois grupos, ele foi bem mais frequente no linfedema, mas não entrou no modelo final de decisão: os achados que melhor separaram as duas condições foram as equimoses, a desproporção corporal e os pés poupados, que dão origem ao sinal do manguito [5]. Os mesmos autores lembram um levantamento populacional em que o sinal foi positivo em 15,9% da população geral, e deixam em aberto se ele também acompanha a insuficiência venosa crônica [5].

Num centro francês de referência em linfedema, das 136 pessoas encaminhadas com suspeita de linfedema nas pernas, 70 (51,5%) tinham outro diagnóstico, e o mais frequente foi lipedema ou lipolinfedema, em 32 delas [7].

Limitações

O sinal isolado não fecha diagnóstico. O diagnóstico do lipedema é clínico, feito pela história e pelo exame físico, e exames como o ultrassom, que mede a espessura do tecido subcutâneo em pontos definidos da coxa e da perna, podem complementar a avaliação [1,8]. Somam-se a isso a variação de técnica entre examinadores, a baixa sensibilidade e o fato de que, no lipedema, o sinal positivo nem sempre acompanha as alterações vistas na linfocintilografia.

Perguntas frequentes

Sinal de Stemmer positivo significa linfedema?

Em geral indica comprometimento linfático, porque é um sinal de alta especificidade. Mas não é prova isolada: em pessoas com lipedema, o sinal positivo nem sempre corresponde a alteração na linfocintilografia, e a conclusão depende do conjunto do exame.

Quem tem lipedema pode ter sinal de Stemmer positivo?

Pode. É esperado quando o lipedema evolui para lipolinfedema, e estudos registraram o sinal positivo em uma minoria de pacientes com lipedema — 7,7% numa coorte espanhola de 1.803 mulheres.

Sinal de Stemmer negativo descarta linfedema?

Não. O sinal tem baixa sensibilidade e pode faltar em linfedemas que começam na raiz da coxa ou que decorrem de compressão na pelve e no abdome.

Dá para pesquisar o sinal de Stemmer em casa?

É uma manobra do exame físico, feita e interpretada pelo profissional junto com a história e os demais sinais. Uma tentativa isolada, fora desse contexto, não permite conclusão.

Referências

  1. Amato ACM. Propedêutica Vascular. São Paulo: Amato – Instituto de Medicina Avançada; 2024. ISBN 978-65-980001-0-3.
  2. Reich-Schupke S, Altmeyer P, Stücker M. Thick legs – not always lipedema. J Dtsch Dermatol Ges. 2013;11(3):225-233. doi:10.1111/ddg.12024 PMID: 23231593
  3. Simarro Blasco JL, Michelini S, Andrés-Gasco M, Lebrero García A, Ortega Abad D, Margalejo Lombardo J, Buj Vargas J, Sanchéz-Costa JT, Martín Martínez MA. Clinical Signs at Diagnosis and Comorbidities in a Large Cohort of Patients with Lipedema in Spain. Biomedicines. 2025;13(12):3049. doi:10.3390/biomedicines13123049 PMID: 41463059
  4. Amato ACM, Peclat APRM, Kikuchi R, de Souza AC, Silva MTB, Oliveira RHP, Benitti DA, Oliveira JCP. Consenso Brasileiro de Lipedema pela metodologia Delphi. J Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301831
  5. Forner-Cordero I, Muñoz-Langa J, Morilla-Bellido L. Building evidence for diagnosis of lipedema: using a classification and regression tree (CART) algorithm to differentiate lipedema from lymphedema patients. Int Angiol. 2025;44(1):71-9. doi:10.23736/S0392-9590.25.05207-1
  6. Forner-Cordero I, Oliván-Sasot P, Ruiz-Llorca C, Muñoz-Langa J. Hallazgos linfogammagráficos en pacientes con lipedema. Rev Esp Med Nucl Imagen Mol. 2018. doi:10.1016/j.remn.2018.06.008 PMID: 30166264
  7. Vignes S, Vidal F, Arrault M. Specialized consultations in a hospital-based referral center for patients suspected of having limb lymphedema: Impact on diagnosis. Vasc Med. 2017;22(4):331-336. doi:10.1177/1358863X17714884 PMID: 28633618
  8. Amato ACM, Saucedo DZ, Santos KS, Benitti DA. Ultrasound criteria for lipedema diagnosis. Phlebology. 2021;36(8):651-658. doi:10.1177/02683555211002340 PMID: 33853452

Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.