Uma caminhada longa num dia quente, um passeio de férias com muitas subidas, uma prova de corrida. No fim do esforço, as canelas aparecem cobertas de manchas vermelhas ou arroxeadas, às vezes com coceira e ardor, com um detalhe curioso: a pele que ficou coberta pela meia continua normal. O quadro tem nome na literatura médica, púrpura induzida pelo exercício, e é descrito com frequência em mulheres com lipedema.
Esta página, produzida pela Associação Brasileira de Lipedema, explica o que se sabe sobre a púrpura do exercício, como ela se diferencia de manchas que pedem tratamento e em que situações é preciso procurar atendimento.
O que é a púrpura do exercício
O livro Propedêutica Vascular, do Prof. Dr. Alexandre Amato, descreve a púrpura induzida pelo exercício como uma erupção que aparece após esforço prolongado e não habitual, sem relação direta com o sol. Formam-se placas avermelhadas, às vezes em relevo como urticária, nos membros inferiores, que podem poupar a área protegida pelas meias e atingir pernas e coxas [1].
O médico suíço Albert-Adrien Ramelet, autor de uma revisão sobre o tema com 16 casos próprios, propôs o nome “púrpura induzida pelo exercício” porque o sinal mais importante é a saída de glóbulos vermelhos dos pequenos vasos para a pele. Na literatura francesa, o mesmo quadro aparece como “vasculite de esforço” e “capilarite dos caminhantes” [2]. Ele foi descrito em maratonistas, depois de caminhadas longas, sobretudo na montanha e no calor, e também após corrida leve, aulas de step e musculação [2].
Como ela aparece
As manchas surgem logo depois de um esforço prolongado e fora do habitual para aquela pessoa [2]. Ficam na parte de baixo da perna, acima dos tornozelos, e podem subir para as coxas. A borda de baixo pode formar uma linha reta, exatamente onde a meia pressionava a pele [2]. O aspecto varia de vermelhidão a placas em relevo ou manchas arroxeadas, provavelmente conforme a intensidade da inflamação [2].
Os sintomas mais relatados são coceira, dor e sensação de queimação. Não há dor abdominal nem repercussão no restante do corpo [2]. A intensidade depende do calor e da intensidade do exercício [1, 2]. Quase todos os casos descritos aconteceram em clima quente, e subir montanhas e usar calçado inadequado aparecem como fatores precipitantes: Ramelet relata uma paciente que tinha as manchas apenas em caminhadas na montanha, nunca em terreno plano [2].
As lesões desaparecem sozinhas em 3 a 10 dias, conforme a extensão. O problema é que voltam com frequência quando o esforço se repete, o que pode atrapalhar bastante as atividades de lazer [2].
Por que acontece
A explicação proposta combina circulação e temperatura. Um esforço longo e incomum aumenta muito o volume de sangue que precisa voltar das pernas. Com o cansaço, a musculatura da panturrilha, que funciona como uma bomba para as veias, perde eficiência, e o sangue passa a se acumular nas pernas, mesmo em quem tem veias saudáveis. Ao mesmo tempo, três quartos da energia gasta pelos músculos viram calor, e o corpo dilata os vasos da pele para se resfriar. Em dias quentes, esse sistema de controle da temperatura se sobrecarrega com mais facilidade [2].
O resultado é uma falha aguda da microcirculação, com saída de glóbulos vermelhos para a pele e inflamação da parede dos pequenos vasos. Em dez maratonistas que fizeram biópsia na hora seguinte à prova, o exame mostrou vasculite leucocitoclástica, um tipo de inflamação de pequenos vasos, com depósitos de proteínas do sistema imune [2]. Apesar desse achado, o diagnóstico é clínico, e os exames de sangue costumam ser normais [1].
A relação com o lipedema
Entre as caminhantes que Ramelet acompanhou, as 16 pacientes eram mulheres, a maioria com pernas lipedematosas, e os casos relatados por outros autores também eram de mulheres [2]. O livro Propedêutica Vascular registra a predileção da púrpura do exercício por portadoras de lipedema e de insuficiência venosa [1].
Há uma nuance importante sobre as veias. Na série de Ramelet, a doença venosa crônica não pareceu favorecer o quadro: 10 das 16 pacientes tinham apenas pequenos vasinhos, sem varizes nem refluxo; numa delas, a retirada da veia safena doente não impediu novos episódios; em outra, as manchas apareceram tanto na perna saudável quanto na perna com a safena insuficiente [2]. Ter varizes, portanto, não é condição para ter púrpura do exercício, e tratar as varizes não é garantia de que ela não volte.
As publicações não explicam por que o quadro aparece mais em pernas com lipedema. O que se sabe é que, no lipedema, o inchaço piora com o tempo em pé e com o calor [1]. Num levantamento com 707 mulheres com lipedema nos Estados Unidos, o inchaço das pernas no calor foi o sintoma que mais as diferenciou das mulheres sem a doença [3]. A facilidade para formar roxos, por fragilidade dos pequenos vasos, também é característica do lipedema [1]. São pistas compatíveis com a observação clínica, mas a ligação não foi estudada diretamente.
Como diferenciar de outras manchas nas pernas
Erisipela. É uma infecção da pele que também deixa a perna vermelha e inchada, mas o quadro é outro. Começa de forma súbita, em geral com febre alta que aparece algumas horas antes da mancha, calafrios, dor intensa, calor local e, às vezes, ínguas na virilha ou atrás do joelho [1, 4]. A vermelhidão tem bordas bem definidas e vai se espalhando [4]. O livro destaca que a vermelhidão da erisipela precisa ser diferenciada da púrpura do exercício, que não causa repercussões no restante do corpo [1]. Febre e mal-estar falam contra a púrpura do exercício.
Capilarite purpúrica crônica. Também chamada de púrpura pigmentosa, forma pontinhos ou manchas nas partes baixas das pernas. Numa de suas formas, a púrpura de Schamberg, as manchas ganham cor acastanhada, descrita como “grãos de pimenta-caiena”, e o quadro é crônico, mais comum em homens por volta dos 50 anos [5]. A púrpura do exercício difere pelo início ligado ao esforço e por sumir rapidamente, sem deixar manchas residuais [2].
Manchas da insuficiência venosa. A hipertensão venosa prolongada provoca manchas cor de fumo ou acastanhadas na parte baixa das pernas, que aumentam lentamente, a chamada dermatite ocre, que pode imitar a púrpura de Schamberg [1]. É um processo lento e progressivo, não de horas.
Roxos do lipedema. No lipedema, roxos aparecem com pouco ou nenhum trauma, sem padrão definido [1]. São manchas isoladas, e não placas que surgem juntas depois de um esforço. O tema está em roxos nas pernas: hematomas, equimoses e petéquias.
No consultório, uma manobra simples ajuda nessa separação: a vitropressão, em que o médico pressiona uma lâmina de vidro transparente sobre a lesão para ver se a cor desaparece, útil para distinguir petéquias de eritema [1]. Na erisipela, por exemplo, a compressão faz a vermelhidão sumir momentaneamente [1].
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico: a história de esforço prolongado, o calor, a localização e o poupar da área da meia costumam bastar, e os exames de sangue são normais [1, 2]. Como o quadro costuma aparecer nas férias e desaparece em poucos dias, poucos médicos chegam a vê-lo na fase aguda, e a descrição típica permite o diagnóstico mesmo depois [2]. Por isso, fotografar as manchas e anotar o que foi feito antes, como a distância, o tipo de terreno, o calor e o calçado, ajuda muito na consulta.
O que ajuda a prevenir
Na experiência descrita por Ramelet, a compressão bem ajustada teve efeito preventivo em várias pacientes, enquanto a compressão mal ajustada não funcionou. A hipótese é que a compressão ajude a bomba muscular da panturrilha e reduza a sobrecarga dos pequenos vasos [2]. Quem já usa meia de compressão no tratamento do lipedema deve conversar com o médico sobre o uso durante caminhadas longas; o assunto está em meias de compressão no lipedema.
As demais medidas decorrem dos gatilhos conhecidos, que são o esforço fora do habitual, o calor, as subidas e o calçado inadequado [2]: aumentar distâncias aos poucos, preferir horários mais frescos, usar calçado confortável e bem ajustado e fazer pausas em percursos longos.
A púrpura do exercício, em si, não causa sintomas no restante do corpo e desaparece em poucos dias [1, 2]. Procure atendimento médico quando o quadro fugir desse padrão:
febre, calafrios ou mal-estar junto com a vermelhidão, que sugerem infecção, como erisipela. Procure atendimento no mesmo dia. Se houver confusão, sonolência, respiração acelerada, pressão baixa, bolhas com sangue ou áreas escuras na pele, vá ao pronto-socorro [4];
dor intensa ou uma perna muito mais inchada que a outra, que pedem avaliação rápida para afastar outras causas, como trombose [1]. Veja os sinais de alerta em inchaço nas pernas: quando não é lipedema;
feridas, bolhas ou áreas escuras na região das manchas, que não fazem parte do quadro descrito [2, 4];
manchas que persistem por mais de dez dias, que aparecem sem esforço ou que deixam marcas acastanhadas, porque outros diagnósticos, como a capilarite ou a doença venosa, entram em consideração [1, 2, 5];
pontinhos vermelhos (petéquias) que surgem sem esforço ou em outras partes do corpo, já que petéquias podem ocorrer em doenças com fragilidade dos vasos ou com queda das plaquetas [1].
Quem convive com lipedema e tem episódios repetidos deve relatá-los ao médico que acompanha a doença. Veja qual médico trata lipedema.
Perguntas frequentes
A púrpura do exercício é perigosa?
Em geral, não. As manchas desaparecem sozinhas em 3 a 10 dias, os exames de sangue são normais e não há repercussão no restante do corpo. O cuidado está em não confundi-la com quadros que precisam de tratamento, como a erisipela, que costuma vir com febre e calafrios.
Por que a parte da perna coberta pela meia não fica manchada?
A pele comprimida pela meia costuma ser poupada, e isso é tão característico que ajuda no diagnóstico. A hipótese é que a compressão ajude a bomba muscular da panturrilha e reduza a sobrecarga dos pequenos vasos. Na experiência publicada, a compressão bem ajustada preveniu novos episódios em várias pacientes.
Por que isso acontece mais em mulheres com lipedema?
A predileção é descrita, mas o motivo não foi estudado diretamente. No lipedema, o inchaço piora com o calor e com o tempo em pé, e há facilidade para formar roxos, o que é compatível com a observação. Ter varizes não parece ser a explicação.
Preciso parar de caminhar?
Não. A atividade física faz parte do cuidado com o lipedema. O que ajuda é aumentar as distâncias aos poucos, evitar os horários mais quentes, usar calçado adequado e conversar com o médico sobre a compressão.
A púrpura do exercício é o mesmo que os roxos do lipedema?
Não. Os roxos do lipedema surgem com pouco ou nenhum trauma, isolados e sem relação direta com o esforço. A púrpura do exercício forma placas nas canelas logo depois de um esforço longo, poupando a área da meia, e some em poucos dias.
Referências
Amato ACM. Propedêutica Vascular. São Paulo: Amato – Instituto de Medicina Avançada; 2024. ISBN 978-65-980001-0-3.
Aday AW, Donahue PM, Garza M, et al. National survey of patient symptoms and therapies among 707 women with a lipedema phenotype in the United States. Vascular Medicine. 2024;29(1):36-41 doi:10.1177/1358863X231202769 PMID: 37844030
Bonnetblanc JM, Bédane C. Erysipelas: recognition and management. Am J Clin Dermatol. 2003;4(3):157-163.
Lamadrid-Zertuche AC, Garza-Rodríguez V, Ocampo-Candiani JJ. Pigmented purpura and cutaneous vascular occlusion syndromes. An Bras Dermatol. 2018;93(3):397-404. doi:10.1590/abd1806-4841.20187459
Amato ACM, Peclat APRM, Kikuchi R, Souza AC, Silva MTB, Oliveira RHP, Benitti DA, Oliveira JCP. Brazilian Consensus Statement on Lipedema using the Delphi methodology. J Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301832 PMID: 39949954
Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.
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