Inchaço nas pernas é uma queixa comum, e as causas vão de passar o dia em pé a doenças que podem ameaçar a vida. Trombose, insuficiência venosa, linfedema, lipedema, problemas do coração, do fígado e dos rins, efeito de medicamentos, inflamações e tumores aparecem entre elas [1]. Por isso, quem convive com lipedema, ou suspeita dele, precisa conhecer duas coisas: o padrão que a doença costuma seguir e os sinais que indicam que o inchaço tem outra origem.
Esta página, produzida pela Associação Brasileira de Lipedema, não serve para fazer diagnóstico em casa. Serve para reconhecer quando procurar um médico e com que pressa.
O padrão do lipedema
O lipedema é um acúmulo desproporcional de gordura nas pernas, simétrico, que atinge os dois lados do corpo. Os pés são poupados, exceto no estágio avançado, o lipolinfedema, e o contraste entre a perna alargada e o pé de aparência normal forma uma espécie de degrau no tornozelo, o chamado sinal do manguito [2]. O inchaço que acompanha a doença piora com o tempo em pé e com o calor, e a pele não afunda ao ser pressionada, ou afunda muito pouco, embora a roupa possa deixar marcas no fim do dia [2]. As áreas afetadas doem ao toque, formam roxos com facilidade e não afinam com dieta, e o quadro costuma começar ou piorar em fases hormonais, como puberdade, gestação e menopausa [2]. Mais detalhes sobre o tornozelo estão em lipedema no tornozelo.
Num estudo italiano que examinou 356 mulheres com lipedema, só 2,8% tinham inchaço no dorso do pé e nos dedos [3]. Quando o inchaço foge desse padrão, a pergunta passa a ser outra: o que mais pode estar acontecendo?
A primeira pergunta: uma perna ou as duas?
Uma revisão alemã sobre a perna inchada resume assim: inchaço de uma perna só costuma ter a causa na própria perna; inchaço nas duas pernas costuma ter uma causa mais acima no corpo ou uma doença geral [1]. A assimetria entre as pernas é um dos critérios que falam contra o lipedema típico [4], enquanto o linfedema, por exemplo, é mais comumente de um lado só [2].
Sinais de alerta
Falta de ar, dor no peito, tosse com sangue ou desmaio: pronto-socorro
A trombose venosa profunda é a formação de um coágulo nas veias profundas, principalmente das pernas, e 90% dos casos de embolia pulmonar começam assim: o coágulo se solta e vai para o pulmão [5]. A diretriz sobre o tema lista como sinais da embolia pulmonar a dor no peito, a falta de ar, a respiração acelerada, a tosse, o escarro com sangue, a taquicardia e o desmaio. Nos pacientes estáveis, dor no peito e falta de ar são os achados mais frequentes [5]. A embolia pode ser a primeira manifestação da trombose, antes mesmo de a perna inchar [2]. Quem não é tratado tem mortalidade quatro vezes maior do que quem recebe tratamento [5].
Diante de falta de ar súbita, dor no peito, tosse com sangue ou desmaio, com ou sem perna inchada, procure um pronto-socorro imediatamente ou acione o serviço de emergência (SAMU, 192). Não espere para ver se passa.
Uma perna inchada de repente, com dor na panturrilha ou na coxa: atendimento no mesmo dia
O livro Propedêutica Vascular, do Prof. Dr. Alexandre Amato, descreve o quadro típico da trombose venosa profunda: começo abrupto, inchaço maior de um lado, dor intensa na panturrilha, na coxa ou em ambas, que piora com o movimento, coloração arroxeada que se acentua de pé, veias superficiais mais visíveis e, às vezes, febre baixa [2]. O risco é maior em quem tem mais idade, ficou imobilizado por muito tempo, esteve internado ou fez viagem longa recentemente, passou por cirurgia, está grávida, sofreu trauma, tem câncer ou já teve trombose, e em quem tem casos na família [2].
Os sinais clínicos, sozinhos, não confirmam nem descartam a trombose; o exame que decide é o ultrassom das veias [1]. Várias condições imitam a trombose, como distensão ou ruptura muscular, cisto de Baker e celulite [5], e é exatamente por isso que a avaliação precisa ser feita no mesmo dia, e não semanas depois. Sobre o risco de trombose em quem tem lipedema, veja existe correlação entre lipedema e trombose?
Perna vermelha, quente e dolorida, com febre ou calafrios: atendimento no mesmo dia
Febre alta, calafrios, perna inchada, quente, avermelhada e muito dolorida, às vezes com ínguas na virilha e bolhas, compõem o quadro agudo da erisipela e da linfangite, infecções da pele e dos vasos linfáticos [2]. A erisipela começa de forma súbita, com a febre muitas vezes surgindo horas antes da vermelhidão, e atinge a perna em 90% dos casos [6]. Os principais fatores de risco são o linfedema e uma porta de entrada na pele, como a micose entre os dedos dos pés; inchaço da perna, insuficiência venosa e obesidade também aumentam o risco [6]. Confusão mental, sonolência, respiração acelerada, pressão baixa, bolhas com sangue ou áreas escuras na pele são sinais de gravidade que podem exigir internação [6]; nesse caso, vá ao pronto-socorro.
A infecção merece atenção também pelo que deixa. Cada episódio pode deixar a perna mais inchada do que antes, e as crises repetidas podem instalar ou agravar um linfedema [1, 2].
Inchaço de um lado só, que cresce rápido, mesmo sem vermelhidão: avaliação em poucos dias
Nem todo inchaço preocupante dói ou fica vermelho. O livro Propedêutica Vascular orienta que um inchaço agudo de um lado só, sem sinais de inflamação, de evolução rápida e às vezes doloroso, seja considerado causado por um tumor que comprime as vias de drenagem até prova em contrário [2]. Isso não quer dizer que seja câncer. Quer dizer que essa possibilidade, assim como a trombose, precisa ser descartada por exame, sem demora.
Pés e dedos inchados: consulta
Como o lipedema poupa os pés, inchaço no dorso do pé e nos dedos sugere outra causa ou uma complicação. No linfedema, o inchaço costuma começar no dorso de um dos pés, no fim da tarde, e os dedos ficam com aspecto quadrado, com a pele sobre eles difícil de pinçar, o chamado sinal de Stemmer [1, 2]. No edema das veias, o inchaço se concentra nos tornozelos e melhora com as pernas elevadas [1]. O lipedema avançado pode evoluir para lipolinfedema, com inchaço no dorso do pé e sinal de Stemmer positivo [2].
Há uma ressalva. Num levantamento por questionário com 707 mulheres com lipedema nos Estados Unidos, 21,2% relataram inchaço nos pés [7]. Pés inchados em quem tem lipedema não descartam a doença, mas pedem que se investigue o que mais pode estar presente.
Inchaço nas duas pernas que sobe dos pés, ou em outras partes do corpo: consulta breve
Inchaço nas duas pernas que começou há pouco tempo pode ter origem geral. Entre as causas estão a insuficiência cardíaca, a cirrose, a insuficiência renal e a síndrome nefrótica, o hipotireoidismo e a falta de proteínas no sangue [2]. O inchaço de origem cardíaca é sempre nas duas pernas, ainda que possa haver diferença entre elas, sobe dos pés em direção aos joelhos e desaparece durante a noite com menos frequência do que o das veias [1]. Quando atinge coxas, quadril e tronco, fala-se em anasarca, o inchaço generalizado [1, 2]. Se vier junto com falta de ar, trate como urgência.
Inchaço que começou depois de um remédio novo: fale com quem receitou
Alguns medicamentos retêm líquido ou causam inchaço nas pernas, entre eles hormônios, remédios para pressão do grupo dos bloqueadores dos canais de cálcio, corticoides e anti-inflamatórios [2, 8]. Esse inchaço costuma aparecer nas semanas seguintes ao início do remédio [8]. Não suspenda o medicamento por conta própria: leve a observação a quem o receitou.
Inchaço no fim do dia, com varizes, manchas escuras ou feridas: consulta vascular
No edema das veias, pernas e pés incham no fim do dia e amanhecem normais; o inchaço pode ser maior de um lado, piora no verão e progride devagar. Com o tempo aparecem manchas cor de fumo na parte baixa da perna, coceira com descamação e, nos casos avançados, feridas que não fecham [2]. Não é urgência, mas merece avaliação vascular, e feridas precisam de cuidado.
O sinal do cacifo ajuda, mas não decide
O sinal do cacifo, ou sinal de Godet, é pesquisado pressionando a pele contra um osso por pelo menos 5 segundos: se a marca do dedo permanece, há líquido acumulado. Ele aparece na maioria dos inchaços, das mais diversas causas, e por isso não fecha diagnóstico sozinho; no lipedema, costuma estar ausente ou ser muito discreto [2]. É uma peça do exame, não um teste caseiro para descartar doença.
Quando tudo se sobrepõe
Ter lipedema não protege contra as outras causas de inchaço. Um caso publicado por pesquisadores brasileiros descreve uma mulher de 80 anos com lipedema avançado, obesidade, insuficiência venosa e linfedema confirmado por exame, após mais de 20 episódios de erisipela. A lição dos autores foi procurar primeiro uma doença que explique todos os sinais, mas reconhecer que várias podem coexistir [9]. O caso está comentado em lipedema, obesidade, linfedema e IVC: quando tudo se sobrepõe.
O caminho inverso também vale. Um relato turco descreve uma mulher com inchaço em uma perna só que acabou recebendo o diagnóstico de lipedema, mas só depois de afastadas trombose, insuficiência venosa, linfedema, infecção e tumor [10]. Mesmo quando o final é lipedema, o que foge do padrão precisa ser investigado antes. As diferenças entre as principais causas de pernas grossas estão em pernas grossas: quando é lipedema?
Por que não tratar o inchaço por conta própria
O tratamento depende da causa, e errar a causa atrasa o que realmente precisa ser feito [1]. Diurético é o exemplo mais comum. A diretriz alemã de lipedema, de 2024, recomenda que ele não seja usado para tratar o lipedema, embora possa ser usado por outras indicações médicas [11]. No linfedema, ele também não atua no mecanismo do inchaço [8].
Resumo: o que fazer em cada situação
O que você nota
O que pode estar por trás
O que fazer
Falta de ar súbita, dor no peito, tosse com sangue ou desmaio
embolia pulmonar
pronto-socorro imediatamente ou SAMU (192)
Uma perna inchada de repente, com dor na panturrilha ou na coxa
trombose venosa profunda, lesão muscular
atendimento no mesmo dia
Perna vermelha, quente e dolorida, com febre ou calafrios
erisipela, celulite, linfangite
atendimento no mesmo dia; pronto-socorro se houver sinais de gravidade
Inchaço de um lado só, crescendo rápido, sem vermelhidão
Inchaço nas duas pernas que sobe dos pés, ou em outras partes do corpo
coração, fígado, rins, tireoide
consulta breve; urgência se houver falta de ar
Inchaço após remédio novo
efeito do medicamento
falar com quem receitou, sem suspender por conta própria
Inchaço no fim do dia, com varizes, manchas escuras ou feridas
insuficiência venosa
consulta vascular
Duas pernas por igual, doloridas ao toque, pés poupados, há anos
padrão compatível com lipedema
consulta com profissional que conheça a doença
Para saber que profissional procurar em cada caso, veja qual médico trata lipedema. Manchas vermelhas nas canelas depois de caminhadas longas têm outra explicação, abordada em púrpura do exercício.
Perguntas frequentes
Inchaço em uma perna só pode ser lipedema?
É incomum. O lipedema típico atinge as duas pernas de forma simétrica, e a assimetria é um dos critérios que falam contra ele. Há relato publicado de apresentação atípica, mas o diagnóstico só foi feito depois de afastadas trombose, infecção, insuficiência venosa, linfedema e tumor. Inchaço novo em uma perna só deve ser avaliado por um médico.
Quando o inchaço nas pernas é urgência?
Quando vem com falta de ar, dor no peito, tosse com sangue ou desmaio: pronto-socorro imediatamente. Quando uma perna incha de repente, com dor na panturrilha ou na coxa, ou fica vermelha, quente e dolorida com febre: atendimento no mesmo dia. Inchaço de um lado só que cresce rápido pede avaliação em poucos dias.
Pé inchado é sinal de lipedema?
Em geral, não. O lipedema poupa os pés, e o contraste entre a perna alargada e o pé normal é uma de suas marcas. Pés e dedos inchados sugerem linfedema, edema venoso, uma causa geral ou a fase avançada do lipedema, o lipolinfedema, e merecem avaliação.
Quem tem lipedema pode ter outra causa de inchaço ao mesmo tempo?
Pode. Lipedema, obesidade, insuficiência venosa e linfedema podem coexistir, e ter lipedema não protege contra trombose ou infecção. Qualquer mudança no padrão habitual do inchaço deve ser levada ao médico.
Posso tomar diurético para desinchar as pernas?
Não por conta própria. A diretriz alemã de lipedema recomenda não usar diurético para tratar o lipedema, e ele também não atua no mecanismo do linfedema. Pode haver indicação por outras doenças, mas quem decide é o médico, depois de identificar a causa.
Referências
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Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.
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