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Seroma depois da cirurgia de lipedema: o que um estudo com 93 pacientes mostrou

Seroma depois da cirurgia de lipedema: o que um estudo com 93 pacientes mostrou

A lipoaspiração se tornou o componente central do tratamento cirúrgico do lipedema e, como toda cirurgia, tem riscos; um deles é o seroma. Um estudo brasileiro publicado em 2026 na revista Aesthetic Plastic Surgery analisou os dados de 93 mulheres operadas por lipedema por uma mesma equipe e procurou responder a duas perguntas: com que frequência o seroma aparece e o que aumenta a chance de ele aparecer [1].

Esta página, produzida pela Associação Brasileira de Lipedema, resume o estudo e o que ele ensina a quem está considerando a cirurgia. Não é um texto a favor nem contra operar: essa decisão depende de indicação individual, discutida em cirurgia e lipoaspiração no lipedema. Entre os autores está o presidente da Associação; por isso, as limitações que os próprios pesquisadores apontam aparecem aqui por inteiro.

Para situar o tema: uma meta-análise de 2024, com 451 pacientes em sete estudos, encontrou melhora de dor, inchaço, hematomas, mobilidade e qualidade de vida depois da lipoaspiração. Os estudos, porém, não eram randomizados, e aproximadamente 51% das pacientes continuaram precisando de tratamento conservador depois da cirurgia [2]. O resumo desse trabalho está em lipoaspiração no lipedema funciona? A meta-análise de 451 pacientes.

O que é seroma

Seroma é um acúmulo de líquido na área operada. Não costuma ameaçar a vida, mas é uma complicação clinicamente relevante, porque pode atrasar a recuperação [1].

Um detalhe do estudo importa para quem vai operar: a maioria dos seromas foi diagnosticada só depois da segunda semana após a cirurgia. Por isso, segundo os autores, a equipe não usou drenos; todas as pacientes foram acompanhadas por pelo menos um mês, a maioria por mais tempo [1]. Os autores chamam a atenção justamente para os seromas de aparecimento tardio, que um acompanhamento mais longo ajuda a detectar.

Como o estudo foi feito

Foi um estudo retrospectivo, com dados de prontuários e relatórios cirúrgicos de um único serviço em São Paulo, entre abril de 2019 e janeiro de 2024 [1]. Principais características:

  • Quem entrou: 93 mulheres operadas para tratar lipedema pela mesma equipe, em estágios clínicos de I a IV.
  • Quem ficou de fora: quem fez, na mesma cirurgia, procedimentos maiores como abdominoplastia, mastopexia, lifting de coxa ou de braço e torsoplastia.
  • Procedimentos menores permitidos junto: os que duravam até 40 minutos e não aumentavam de forma importante o trauma cirúrgico — revisão de cicatriz, retirada de lipoma, aumento de mama e cirurgia de varizes sem abordar a veia safena.
  • Técnica: lipoaspiração tumescente em todas; em parte delas, foram usadas tecnologias auxiliares (lipoaspiração assistida por ultrassom, laser ou radiofrequência).
  • Anestesia: sedação com anestesia local tumescente em 80,6%, anestesia geral em 19,4%.
  • Volume retirado: em média 4.500 mL (de 800 a 8.000 mL), o que correspondeu em média a 6,10% do peso corporal (de 1,22% a 10,76%).
  • Acompanhamento: com uso sistemático de ultrassom no pós-operatório.

Os pesquisadores compararam as pacientes com e sem seroma e usaram um modelo estatístico que avalia vários fatores ao mesmo tempo, para separar o que se associa de forma independente ao seroma do que apenas acompanha outro fator [1].

Resultado principal: 18,3% tiveram seroma

Dezessete das 93 pacientes (18,3%) desenvolveram seroma [1]. É bem mais do que as séries anteriores de lipoaspiração no lipedema relatavam — menos de 1%, segundo os autores. Uma revisão sistemática de 2024, que reuniu dez estudos, 906 pacientes e 2.542 procedimentos, encontrou o seroma mencionado em apenas 3 casos (0,5%) [3].

Os autores atribuem a diferença sobretudo à forma de procurar: o ultrassom de rotina no pós-operatório, o acompanhamento próximo e mais longo permitiram detectar seromas que, sem imagem, poderiam passar despercebidos [1]. Por isso, taxas de estudos que procuraram o seroma de formas diferentes não são diretamente comparáveis.

Complicações graves não ocorreram: nenhum caso de trombose venosa profunda, embolia pulmonar, necrose de tecido ou anemia grave. Entre as complicações menores, houve uma infecção e um hematoma [1].

O que se associou a mais seroma

Na análise que considera vários fatores ao mesmo tempo, três se associaram ao seroma de forma independente [1].

Volume retirado em relação ao peso. As pacientes com seroma tiveram, em média, 7,27% do peso corporal retirado, contra 5,84% nas que não tiveram (p = 0,005). No modelo estatístico, cada ponto percentual a mais do peso corporal aspirado multiplicou por 1,58 a chance de seroma (intervalo de confiança de 95%: 1,02 a 2,43). Quando o volume foi dividido em faixas — menos de 5%, de 5% a 7% e 7% ou mais —, 47,1% das pacientes com seroma estavam na faixa mais alta, contra 36,8% das sem seroma; nesse formato, porém, a diferença não alcançou significância estatística [1]. O limite de volume por cirurgia é também tema de norma própria, reunida na página normas de segurança na lipoaspiração para lipedema.

Outro procedimento na mesma cirurgia. Entre as pacientes com seroma, 64,7% tinham feito algum procedimento menor junto com a lipoaspiração, contra 36,8% entre as sem seroma. No modelo, fazer um procedimento associado multiplicou por 6,77 a chance de seroma (intervalo de confiança de 95%: 1,70 a 26,97) [1]. O intervalo é largo, o que indica imprecisão sobre o tamanho exato do efeito. A cirurgia de varizes, o procedimento associado mais comum, não mostrou associação significativa quando analisada isoladamente: tinham feito essa cirurgia 41,2% das pacientes com seroma e 22,4% das sem seroma (p = 0,130). Os autores levantam a hipótese de que o trauma adicional sobre veias e vasos linfáticos contribua para o acúmulo de líquido, e reconhecem que o grupo de procedimentos associados era variado demais para dizer qual deles pesa mais [1].

Estágio da doença. O seroma foi mais frequente nos estágios mais avançados: 1 de 12 pacientes no estágio I (8,3%), 4 de 43 no estágio II (9,3%), 11 de 36 no estágio III (30,6%) e 1 de 2 no estágio IV (50,0%). No modelo, cada estágio a mais multiplicou por 3,57 a chance de seroma (intervalo de confiança de 95%: 1,22 a 10,46) [1]. Os próprios autores pedem cautela: havia poucas pacientes nos estágios I e IV, e a distinção entre os estágios II e III pode ser subjetiva, sobretudo quando feita a partir de prontuários. Eles tratam esse achado como exploratório.

O que não fez diferença nesta amostra

Vários fatores que se poderia imaginar importantes não mostraram associação com o seroma [1]:

  • Peso e IMC. O peso médio foi de 76,7 kg nas pacientes com seroma e 73,1 kg nas sem seroma (p = 0,278); o IMC médio, de 28,4 e 27,1 (p = 0,249). Os autores observam que esse resultado difere de outros relatos, como uma revisão sobre complicações da lipoaspiração em geral.
  • Idade, tipo de anestesia, lipoaspiração anterior, região operada (braços, pernas, joelhos, coxas) e número de sessões cirúrgicas.
  • Tempo de tratamento conservador antes da cirurgia. Mais de 64% das pacientes tinham feito tratamento conservador antes de operar, e a duração desse tratamento não se associou ao risco de seroma.

“Não mostrou associação” em 93 pacientes não é o mesmo que “não importa”: com uma amostra desse tamanho, efeitos pequenos podem passar despercebidos. Sobre o tratamento conservador, vale acrescentar que os autores o consideram parte essencial do cuidado, pelo preparo, pelas expectativas realistas e pela adesão às orientações depois da cirurgia [1]. O Consenso Brasileiro de Lipedema recomenda priorizá-lo e considerar a cirurgia só depois de esgotadas essas opções [4].

E a lipoaspiração assistida por ultrassom?

Nenhuma das 14 pacientes operadas com lipoaspiração assistida por ultrassom teve seroma; os 17 casos ocorreram entre as outras 79 pacientes [1]. A diferença, no entanto, não alcançou significância estatística (p = 0,065), e essa técnica não pôde nem entrar no modelo estatístico, justamente por não ter nenhum caso. Os autores são explícitos: o achado deve ser considerado apenas gerador de hipótese. No sentido oposto, entre as 9 pacientes em que foi usado um tipo de laser (980 nm), 3 tiveram seroma (33%), número pequeno demais para qualquer conclusão [1].

Outros dados ajudam a não tirar conclusões apressadas. Numa série francesa de 191 mulheres operadas por lipedema das pernas com lipoaspiração assistida por ultrassom de terceira geração, 11 (5,75%) tiveram seroma registrado como complicação [5]. Técnica, definição de seroma e forma de acompanhamento diferem entre os dois estudos, o que impede comparar os números diretamente, mas o dado mostra que a técnica assistida por ultrassom não elimina o problema.

Limitações que os autores reconhecem

Os pesquisadores listam os limites do próprio trabalho [1]:

  • é retrospectivo, de um único centro e com amostra relativamente pequena, o que pode introduzir vieses de informação e de seleção e limita a generalização;
  • o estadiamento foi feito a partir de prontuários, sem critérios fotográficos ou de imagem padronizados, com possibilidade de erro entre estágios vizinhos, principalmente II e III;
  • os estágios I e IV tinham poucas pacientes, o que deixa as estimativas desses grupos imprecisas;
  • o grupo de procedimentos associados era heterogêneo, sem permitir análise por tipo de procedimento;
  • a decisão de associar procedimentos pode ter sido influenciada pelo padrão de prática da instituição e pela composição da equipe, o que é outra fonte possível de viés;
  • o subgrupo operado com ultrassom era pequeno.

Os autores concluem pedindo estudos prospectivos para confirmar essas tendências e esclarecer o papel das técnicas assistidas por ultrassom.

O que o estudo ensina a quem vai operar

O estudo não indica nem contraindica a cirurgia. Ele ajuda a fazer perguntas melhores à equipe cirúrgica — sempre lembrando que a resposta depende de cada caso.

  • Quanto se pretende retirar, em relação ao peso corporal? Nesta série, quanto maior a proporção do peso retirada, maior a chance de seroma.
  • Será feito outro procedimento na mesma cirurgia? Neste estudo, só procedimentos menores eram permitidos junto, e ainda assim se associaram a mais seroma.
  • Como será o acompanhamento depois? Como a maioria dos seromas apareceu depois da segunda semana, o acompanhamento precisa ir além dos primeiros dias; os autores defendem vigilância pós-operatória cuidadosa, inclusive para complicações tardias [1].
  • Qual a orientação sobre compressão? Um grupo de especialistas das associações britânicas de cirurgia plástica recomenda roupas de compressão sob medida logo após a cirurgia, para reduzir o inchaço e o risco de seroma ou hematoma [6]. O tipo de peça e o tempo de uso são definidos pela equipe. A página sobre o pós-operatório do lipedema traz mais sobre essa fase.
  • O estágio da doença muda algo no meu caso? Nesta série, estágios mais avançados tiveram mais seroma — com as ressalvas que os próprios autores fazem.

Saber que o seroma é relativamente comum quando é procurado com ultrassom ajuda a não se assustar se ele aparecer e a entender por que o retorno às consultas importa. Para o quadro completo — quando a cirurgia costuma ser considerada, quando não, e o que perguntar antes de decidir —, veja cirurgia e lipoaspiração no lipedema e tratamento conservador do lipedema. Conversar com quem já passou pela cirurgia também ajuda a calibrar expectativas: a comunidade da ABL é gratuita.

Perguntas frequentes

O que é seroma depois da lipoaspiração de lipedema?

É um acúmulo de líquido na área operada. Não costuma ameaçar a vida, mas pode atrasar a recuperação. No estudo com 93 pacientes operadas por lipedema, a maioria dos seromas foi diagnosticada depois da segunda semana após a cirurgia.

Seroma é comum na cirurgia de lipedema?

No estudo, 17 de 93 pacientes (18,3%) tiveram seroma, bem acima do que séries anteriores relatavam (menos de 1%). Os autores atribuem a diferença principalmente ao acompanhamento sistemático com ultrassom, que detecta casos que poderiam passar despercebidos.

O que aumenta o risco de seroma na cirurgia de lipedema?

Nesta série, três fatores se associaram ao seroma: maior volume retirado em relação ao peso corporal, outro procedimento feito na mesma cirurgia e estágio mais avançado da doença. O IMC, a idade e o tipo de anestesia não mostraram associação.

Lipoaspiração assistida por ultrassom evita seroma?

Não há prova disso. Nenhuma das 14 pacientes operadas com essa técnica teve seroma, mas a diferença não foi estatisticamente significativa e o grupo era pequeno. Em outra série, com 191 pacientes operadas com lipoaspiração assistida por ultrassom, houve seroma em 5,75%.

Fazer tratamento conservador antes da cirurgia diminui o risco de seroma?

Neste estudo, a duração do tratamento conservador antes da cirurgia não se associou ao risco de seroma. Mesmo assim, os autores o consideram parte essencial do cuidado, e o Consenso Brasileiro de Lipedema recomenda priorizá-lo antes de considerar a cirurgia.

Referências

  1. Amato FCM, Amato LGL, Amato ACM, Benitti DA. Postoperative Seroma in Lipedema Surgery: A Retrospective Analysis of 93 Cases from a Single Surgical Team. Aesth Plast Surg. 2026. doi:10.1007/s00266-026-05774-7
  2. Amato AC, Amato JL, Benitti D. Efficacy of Liposuction in the Treatment of Lipedema: A Meta-Analysis. Cureus. 2024;16(2):e55260. doi:10.7759/cureus.55260 PMID: 38558609
  3. Fijany AJ, Ford AL, Assi PE, Hung YC, Montorfano L, Mubang RN, Karagoz H. Comparing the safety and effectiveness of different liposuction techniques for lipedema. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2024;97:256-267. doi:10.1016/j.bjps.2024.07.038
  4. Amato ACM, Peclat APRM, Kikuchi R, Souza AC, Silva MTB, Oliveira RHP, Benitti DA, Oliveira JCP. Brazilian Consensus Statement on Lipedema using the Delphi methodology. J Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301832 PMID: 39949954
  5. Hersant B, de Clermont-Tonnerre E, Argentino G, Bensid M, Bensaid S, Roccaro G, Hermeziu O, Murante A, La Padula S, Meningaud JP. Observational Study of Ultrasound-Assisted Liposuction for Lower Limb Lipedema on 191 Female Patients. Plast Reconstr Surg. 2026;157(5):751e-762e. doi:10.1097/PRS.0000000000012217. PMID: 40397828.
  6. Dancey A, Pacifico M, Kanapathy M, MacQuillan A, Ross G, Mosahebi A. Summary document on safety and recommendations on liposuction for lipoedema: Joint British association of aesthetic plastic surgeons (BAAPS)/British association of plastic reconstructive and aesthetic surgeons (BAPRAS) expert liposuction group. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2023;77:400-407. doi:10.1016/j.bjps.2022.12.004

Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.

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