Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL
Índice
- Apresentação geral: o que é este estudo e por que importa
- O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas
- A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
- O que isso muda na prática: implicações para pacientes
- Você sabia que…?
- Referência científica
Apresentação geral: o que é este estudo e por que importa
“Só a cirurgia resolve.” Essa é uma frase que muitas mulheres com lipedema escutam na primeira consulta. Mas será que é verdade?
Um estudo publicado em 2021 na American Journal of Case Reports, pelos médicos Alexandre Amato e Daniel Benitti, veio questionar essa ideia — e mostrar que o tratamento não cirúrgico do lipedema não só é possível como pode trazer resultados concretos e mensuráveis.
O lipedema é uma doença crônica e progressiva que provoca acúmulo anormal de gordura nas pernas e braços, acompanhado de dor, inchaço e limitação de movimentos. Existe uma tendência na literatura médica de apresentar a lipoaspiração como o principal — ou único — tratamento definitivo. Esse estudo veio mostrar outro caminho.
Os pesquisadores acompanharam 5 mulheres com lipedema em diferentes estágios da doença (do estágio 1 ao estágio 4) e com objetivos de tratamento diferentes. Usando ferramentas objetivas para medir melhora — um questionário de sintomas (o QuASiL), medidas de volume dos membros e bioimpedância — eles documentaram o que acontece quando pacientes com lipedema são tratadas sem cirurgia.
O resultado é uma mensagem importante: o tratamento deve ser individualizado. A cirurgia é uma opção, não a única. E entender o que cada paciente realmente precisa é o ponto de partida para oferecer o melhor cuidado.
O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas
Dor que piora ao ficar de pé. Pernas que incham ao longo do dia. Hematomas que aparecem sem motivo. Uma gordura que não vai embora com nenhuma dieta. E, com o tempo, dificuldade para caminhar, subir escadas e até amarrar o próprio sapato.
O lipedema é uma doença progressiva — e o estudo apresenta casos que ilustram bem essa progressão. As 5 mulheres acompanhadas tinham entre 34 e 90 anos e estavam em estágios diferentes da doença:
- Uma jovem de 34 anos que, desde a adolescência, via as pernas engrossar enquanto o restante do corpo respondia normalmente à dieta e ao exercício — ela chegou a pesar 95 kg, conseguiu baixar para 65 kg com exercícios, mas o volume das pernas não diminuiu.
- Uma mulher de 90 anos que perdeu a mobilidade e desenvolveu erisipela recorrente (uma infecção grave da pele) por conta da progressão da doença ao longo de décadas.
- Uma de 52 anos que descobriu, ao investigar o lipedema, que tinha hipersensibilidade alimentar a laticínios, castanha de caju e outros alimentos — o que provavelmente agravava sua inflamação.
Cada caso mostra que o lipedema não é apenas estético. É uma doença que limita, dói e, sem tratamento, avança.
A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
Cinco mulheres, cinco histórias diferentes — e todas com melhora documentada sem cirurgia.
Os tratamentos usados foram: dieta anti-inflamatória ou cetogênica, exercícios aquáticos, drenagem linfática manual e fitoterápicos antioxidantes. Os resultados foram medidos pelo questionário QuASiL (quanto maior a pontuação, mais sintomas) e pela volumetria dos membros.
Veja o que aconteceu:
- Caso 1 (39 anos, estágio 1): Em 8 meses, a pontuação de sintomas caiu de 89 para 58 pontos (melhora de 34,8%) e o volume total das pernas reduziu 1.230 mL — tudo sem cirurgia.
- Caso 2 (64 anos, estágio 1): Após apenas 1 mês de tratamento, a pontuação despencou de 44 para 11 pontos — uma melhora de 75%, com desaparecimento dos nódulos dolorosos.
- Caso 3 (52 anos, estágio 2): Em 5 meses, a pontuação caiu de 103 para 22 pontos (melhora de 78,6%) e o volume das pernas reduziu 1.920 mL.
- Caso 4 (34 anos, estágio 3): Em 11 meses, a pontuação passou de 115 para 59 pontos (melhora de 48,6%) e o volume das pernas reduziu impressionantes 10.739 mL — mais de 10 litros — mesmo com IMC de 34,2 kg/m².
- Caso 5 (90 anos, estágio 4): A erisipela recorrente foi resolvida com tratamento clínico combinado, sem necessidade de internação ou cirurgia.
O que isso muda na prática: implicações para pacientes
Se você tem lipedema e já ouviu que a única saída é a lipoaspiração, este estudo traz uma perspectiva diferente — e esperançosa.
A cirurgia é uma ferramenta, não uma obrigação. O estudo deixa claro que a lipoaspiração deve ser considerada como uma opção entre muitas, e não como o único tratamento definitivo. O tratamento não cirúrgico funciona, e os números do estudo comprovam isso.
O objetivo do tratamento deve ser combinado com a paciente. Cada uma das 5 mulheres deste estudo tinha uma prioridade diferente: uma queria reduzir a dor, outra diminuir o volume, outra resolver uma infecção. O tratamento foi moldado a partir dessa necessidade — e não de um protocolo único para todas.
O tratamento não cirúrgico inclui mudanças reais de estilo de vida: dieta anti-inflamatória ou cetogênica, exercícios na água, drenagem linfática manual e suporte com antioxidantes naturais. Não é simples, mas é possível — e os resultados aparecem em semanas a meses.
A fase inflamatória é o pior momento para operar. O estudo reforça que, antes de pensar em cirurgia, é essencial reduzir a inflamação. E o tratamento clínico é a melhor forma de chegar a esse ponto.
Se você está em tratamento para lipedema, converse com seu médico sobre os objetivos reais do tratamento e explore as opções não cirúrgicas antes de tomar uma decisão definitiva.
Você sabia que…?
Você sabia que uma mulher de 90 anos com lipedema no estágio mais avançado conseguiu resolver uma infecção grave de pele — sem cirurgia?
Esse é um dos casos documentados neste estudo. A paciente tinha pernas com lipedema desde a adolescência, perdeu gradualmente a mobilidade ao longo das décadas e, aos 90 anos, desenvolveu erisipela recorrente (uma infecção bacteriana grave da pele) que não cedia a nenhum tratamento anterior.
Com o início do manejo clínico do lipedema — dieta anti-inflamatória, exercícios moderados, antioxidantes e drenagem linfática — combinado com o tratamento da erisipela, houve resolução rápida da infecção. A espessura da pele e do tecido subcutâneo na pré-tíbia era de 57,27 mm em uma perna e 55,9 mm na outra — valores que confirmam o diagnóstico de lipedema avançado por ultrassom.
Outro dado surpreendente: em um dos casos, uma mulher de 34 anos com lipedema no estágio 3 perdeu mais de 10 litros de volume nas pernas em 11 meses de tratamento sem cirurgia — mesmo com obesidade grau I pelo IMC. A pontuação de sintomas melhorou quase 50%.
O lipedema tem muito mais opções de tratamento do que muita gente imagina. E a cirurgia, quando necessária, funciona melhor quando o terreno já foi preparado pelo tratamento clínico.
Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).
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