Pular para o conteúdo

Prevalência do lipedema no Brasil: os dados oficiais

Prevalência do lipedema no Brasil: os dados oficiais

Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL

Índice

Apresentação geral: o que é este estudo e por que importa

Você já se perguntou quantas mulheres brasileiras sofrem de lipedema sem saber? Pesquisadores brasileiros foram atrás dessa resposta — e o que encontraram é surpreendente.

O lipedema é uma doença caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura nas pernas e nádegas, acompanhado de dor, inchaço e sensibilidade ao toque. Apesar de existir há décadas, ela é frequentemente confundida com obesidade ou linfedema, deixando milhões de mulheres sem diagnóstico correto e sem tratamento adequado.

Para preencher essa lacuna no Brasil, os médicos Alexandre Amato, Fernando Amato, Juliana Amato e Daniel Benitti aplicaram um questionário de rastreamento validado a uma amostra representativa da população feminina brasileira. O objetivo era simples, mas poderoso: descobrir quantas mulheres no nosso país têm sintomas compatíveis com lipedema — e quais problemas de saúde acompanham essa condição.

Os resultados foram publicados no Jornal Vascular Brasileiro em 2022 e representam o primeiro estudo populacional sobre lipedema realizado no Brasil. A pesquisa é importante porque, sem saber o tamanho do problema, fica impossível criar políticas de saúde, treinar médicos e garantir diagnóstico precoce para quem precisa.

Conhecer os números é o primeiro passo para mudar a realidade de milhões de brasileiras que convivem com dor, inchaço e constrangimento sem nem saber que têm uma doença com nome e tratamento.

O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas

Imagine acordar todos os dias com dor nas pernas, sentir que seus tornozelos estão sempre inchados no final do dia e ser tratada como se o problema fosse simplesmente falta de força de vontade. Essa é a realidade de muitas mulheres com lipedema.

O lipedema é uma doença que provoca acúmulo desproporcional de gordura nas pernas e nádegas — uma gordura diferente, que não responde à dieta nem ao exercício como a gordura comum. As mulheres com a doença frequentemente relatam dor ao toque, sensação de peso, hematomas espontâneos e inchaço que piora ao longo do dia.

Neste estudo, os pesquisadores mostraram que as mulheres com sintomas sugestivos de lipedema apresentam taxas muito mais altas de ansiedade (61,3% contra 44,3% na população geral) e de depressão (38,7% contra 22,9%). Isso não é coincidência: anos sem diagnóstico, dor crônica e a sensação de não ser levada a sério pelos médicos cobram um preço enorme na saúde mental.

Além disso, dor nas pernas estava presente em 90,3% das mulheres com lipedema — quase o dobro da taxa da população geral (48,6%). E 51,6% relataram inchaço nas pernas, contra apenas 13% das outras participantes.

A doença afeta a autoestima, a capacidade de se exercitar, a qualidade do sono e as relações sociais. Entender isso é fundamental para que médicos, familiares e a própria sociedade olhem para essas mulheres com mais empatia e menos julgamento.

A descoberta: o que os pesquisadores encontraram

Os números falam por si: 12,3% das mulheres brasileiras têm sintomas compatíveis com lipedema. Isso equivale a aproximadamente 8,8 milhões de mulheres adultas entre 18 e 69 anos em todo o país.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores aplicaram um questionário validado a 253 mulheres representativas da população brasileira — distribuídas proporcionalmente por faixa etária conforme o censo de 2021. O questionário já havia sido testado e mostrou excelente precisão diagnóstica (área sob a curva ROC de 0,8615).

Além da prevalência, o estudo identificou quais problemas de saúde estão mais associados ao lipedema:

  • Dor nas pernas: 90,3% das mulheres com lipedema tinham esse sintoma
  • Sensação de retenção de líquido: 64,5%
  • Inchaço/edema nas pernas: 51,6%
  • Hematomas frequentes nas pernas: 54,8%
  • Ansiedade: 61,3%
  • Hipertensão arterial: 41,9%
  • Depressão: 38,7%
  • Anemia: 41,9%

Um dado importante: o índice de massa corporal (IMC) médio das mulheres com lipedema foi de apenas 27 kg/m² — ligeiramente acima do peso, mas longe dos valores de obesidade. Isso reforça que o lipedema não é sinônimo de obesidade e que não basta olhar para o peso da balança para diagnosticar a condição.

O que isso muda na prática: implicações para pacientes

Se 12,3% das mulheres brasileiras têm sintomas de lipedema, por que tão poucas recebem o diagnóstico? É justamente essa pergunta que este estudo ajuda a responder — e suas implicações práticas são importantes para quem suspeita ter a doença.

O diagnóstico ainda é feito tardiamente. O lipedema só foi incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) recentemente e ainda não faz parte do currículo médico no Brasil. Isso significa que muitas mulheres passam anos ouvindo que precisam “apenas emagrecer” ou “fazer mais exercício” — sem resultado, porque a gordura do lipedema não responde a essas intervenções da mesma forma.

O IMC não é um bom critério. As participantes com lipedema tinham IMC médio de 27 kg/m², quase igual ao da população geral (26,9 kg/m²). Isso mostra que mulheres com peso normal ou levemente acima do peso podem ter lipedema — e precisam de avaliação especializada.

Sintomas como dor, inchaço e hematomas fáceis nas pernas devem ser levados a sério. Se você tem esses sintomas, vale buscar um profissional que conheça a doença — cirurgiões vasculares, angiologistas e alguns dermatologistas já estão mais familiarizados com o tema.

Ansiedade, depressão e anemia estiveram significativamente associadas ao lipedema neste estudo. Se você cuida dessas condições mas os sintomas nas pernas persistem, o lipedema pode ser parte do quadro e merece investigação.

O estudo mostra que o problema existe em grande escala no Brasil. Reconhecê-lo é o primeiro passo para tratá-lo.

Você sabia que…?

Você sabia que o lipedema pode afetar quase 1 em cada 8 mulheres brasileiras adultas?

É isso que mostrou o primeiro estudo populacional sobre lipedema realizado no Brasil: a prevalência estimada é de 12,3%, o que corresponde a aproximadamente 8,8 milhões de mulheres entre 18 e 69 anos em todo o país.

Para efeito de comparação, a prevalência estimada na Europa variava entre 0,06% e 39% — uma variação enorme, justamente porque poucos estudos usavam ferramentas diagnósticas validadas. Este estudo brasileiro é o primeiro a usar um questionário com precisão comprovada (especificidade de 88%) para estimar a prevalência em uma amostra representativa da população.

Outro dado surpreendente: o IMC médio das mulheres com lipedema foi de apenas 27 kg/m² — o que significa que a maioria estava com sobrepeso leve, e não com obesidade. Isso derruba o mito de que lipedema é “só gordura” ou resultado de sedentarismo.

E mais: 90,3% das mulheres com lipedema relataram dor nas pernas como sintoma — quase o dobro da taxa observada nas demais participantes. A dor é real, documentada e merece atenção médica.

Se você ou alguém que você conhece tem pernas que doem, incham e não melhoram com dieta e exercício, vale conversar com um especialista. O lipedema tem nome, tem diagnóstico e tem tratamento.


Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).

Leia também sobre lipedema

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *