Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL
Índice
- Apresentação Geral: O que é este estudo e por que importa
- O Problema: Como o lipedema afeta a vida das pessoas
- A Descoberta: O que os pesquisadores encontraram
- O que isso muda na prática: Implicações para pacientes
- Você sabia que…?
- Referência científica
Apresentação Geral: O que é este estudo e por que importa
E se o lipedema fosse, na verdade, um superpoder evolutivo que deu errado?
Essa é a ideia central de um artigo científico publicado em 2025 pelo Dr. Alexandre Amato, cirurgião vascular do Instituto de Medicina Avançada de São Paulo.
O editorial propõe uma forma completamente nova de entender o lipedema: em vez de encarar o acúmulo de gordura nas pernas como um defeito ou uma falha do corpo, o autor sugere que essa característica pode ter sido uma vantagem fundamental para a sobrevivência de nossas ancestrais na pré-história.
A ideia é simples e poderosa: as mulheres que tinham mais capacidade de armazenar gordura subcutânea (exatamente o tipo predominante no lipedema) sobreviviam melhor em períodos de escassez de alimentos, durante a gravidez e a amamentação. Esse mecanismo foi tão eficiente que foi passado de geração em geração.
O problema? No mundo moderno, com comida abundante, estresse crônico, poluição e dietas ricas em glúten, esse mesmo mecanismo ancestral se torna uma armadilha — gerando inflamação crônica, dor e resistência à perda de gordura.
Entender o lipedema dessa forma muda completamente a abordagem: em vez de “atacar” a gordura, o foco deve ser tratar a inflamação que ativa esse mecanismo de armazenamento. Uma perspectiva que pode transformar o tratamento de milhões de mulheres.
O Problema: Como o lipedema afeta a vida das pessoas
Por que emagrecer não resolve o lipedema — e culpar a paciente é um erro científico
Uma das situações mais frustrantes para quem tem lipedema é ouvir: “é só uma questão de disciplina” ou “se você comer menos e se exercitar mais, vai resolver”. A teoria evolutiva do lipedema, publicada em 2025, explica cientificamente por que isso é errado.
O corpo das mulheres com lipedema está, em certo sentido, “programado” para segurar a gordura nos quadris, coxas e pernas. Esse programa vem de milênios de evolução: as mulheres que conseguiam armazenar energia de forma eficiente na gordura subcutânea tinham mais chances de sobreviver à fome, de gerar bebês saudáveis e de amamentá-los.
Mas há um detalhe fundamental: esse mecanismo de armazenamento só é ativado quando o corpo recebe um “sinal de alerta” de que o ambiente é hostil. E esse sinal é a inflamação.
No mundo moderno, esses sinais de alerta chegam de todas as direções: poluição do ar, estresse crônico, dietas industrializadas ricas em açúcar e glúten, privação de sono. O corpo interpreta tudo isso como “perigo” — e ativa o modo de armazenamento de emergência.
E o que acontece quando a mulher faz uma dieta hipocalórica drástica? O corpo interpreta como “fome” — outro sinal de alerta — e segura ainda mais a gordura.
Isso não é fraqueza. É biologia. E entender esse mecanismo é o primeiro passo para tratar o lipedema de verdade — atacando a inflamação em vez de culpar a paciente.
A Descoberta: O que os pesquisadores encontraram
Os números que sustentam a teoria evolutiva do lipedema
O artigo publicado em 2025 não é apenas teoria — ele se apoia em dados concretos de pesquisas anteriores do mesmo autor e da literatura científica. Veja os achados mais importantes:
- 12,3% das mulheres adultas no Brasil têm lipedema — isso é mais comum do que muitas doenças amplamente reconhecidas
- 76,9% das mulheres com lipedema apresentam sintomas de TDAH, comparado a 54% das mulheres sem lipedema (risco relativo 1,424; p<0,0001) — em estudo com 354 mulheres. O TDAH também tem explicação evolutiva: hiperatividade e impulsividade podem ter ajudado na exploração de novos territórios e na tomada rápida de decisões em ambientes hostis
- 47,4% das pacientes com lipedema têm o gene HLA-DQ2 e 22,2% têm o HLA-DQ8 — os mesmos genes associados à sensibilidade ao glúten. Na pré-história, esses genes não eram desvantajosos porque a dieta era cetogênica (sem trigo nem glúten)
- A gordura subcutânea produz mais de 600 adipocinas — substâncias que regulam o metabolismo, a sensibilidade à insulina e o equilíbrio hormonal. Remover essa gordura cirurgicamente pode causar o que o autor chama de “insuficiência endócrina adiposa pós-cirúrgica”
- Estratégias conservadoras — dieta cetogênica, dieta sem glúten, exercício aquático, drenagem linfática — mostraram melhora de sintomas e estética em estudos de casos, sem os riscos da cirurgia
A mensagem central: a gordura do lipedema não é “inimiga” — é um órgão endócrino que está inflamado e precisa de cuidado, não de remoção.
O que isso muda na prática: Implicações para pacientes
Se você tem lipedema, estas descobertas mudam o que você deve (e não deve) fazer
A teoria evolutiva do lipedema, publicada em 2025, tem implicações práticas muito concretas para o dia a dia de quem vive com essa condição:
1. Dietas radicais de restrição calórica podem piorar o lipedema. Quando o corpo interpreta a fome como uma ameaça à sobrevivência, ele ativa ainda mais o mecanismo de armazenamento de gordura. Dietas cetogênicas ou anti-inflamatórias fazem mais sentido do que simplesmente comer menos.
2. Se você tem os genes HLA-DQ2 ou HLA-DQ8, eliminar o glúten pode ajudar. Esses genes — presentes em quase metade das pacientes com lipedema — estão associados a maior permeabilidade intestinal, o que amplifica a inflamação sistêmica. Uma dieta sem glúten pode reduzir esse gatilho inflamatório.
3. O estresse crônico é um inimigo real do lipedema. Ele age como um sinal de “alerta” que ativa o modo de armazenamento. Gerenciar o estresse não é luxo — é parte do tratamento.
4. Antes de considerar a lipoaspiração, esgote as opções conservadoras. O artigo alerta que remover cirurgicamente o tecido adiposo pode gerar desequilíbrios metabólicos e hormonais, porque essa gordura é um órgão que produz hormônios e substâncias reguladoras vitais.
5. Se você tem TDAH junto com lipedema, tratar o TDAH pode melhorar a adesão ao tratamento. Técnicas de entrevista motivacional e lembretes digitais podem ser aliados importantes.
O lipedema precisa de um tratamento que respeite a biologia do corpo — não que a combata.
Você sabia que…?
Você sabia que as mulheres vivem, em média, 7 anos a mais que os homens — e isso pode estar relacionado ao lipedema?
Parece uma conexão improvável, mas o artigo científico publicado em 2025 faz exatamente essa ligação — e ela faz sentido evolutivo.
A teoria é a seguinte: ao longo de milênios, homens e mulheres desenvolveram metabolismos diferentes. Os homens, envolvidos em caçadas e defesa do território, precisavam mobilizar energia rapidamente — por isso desenvolveram predominância de gordura visceral (barriguda), que libera energia depressa, mas aumenta o risco cardiovascular.
As mulheres, responsáveis pela gestação, amamentação e cuidado dos filhos, desenvolveram um metabolismo de conservação a longo prazo — armazenando gordura subcutânea (tipo lipedema) nas coxas e pernas. Essa gordura protege o coração, serve de reserva energética e tem função hormonal.
Resultado? As mulheres, em média, vivem 7 anos a mais que os homens. E parte dessa longevidade pode estar associada exatamente ao tipo de gordura que o lipedema produz em excesso.
O problema não é a gordura — é a inflamação que a acompanha no contexto moderno.
Outro dado surpreendente: a gordura subcutânea produz mais de 600 substâncias chamadas adipocinas, que regulam desde o apetite até a sensibilidade à insulina. Isso significa que um único tecido gorduroso do corpo funciona como uma glândula que fabrica centenas de hormônios. Remover essa gordura indiscriminadamente pode ter consequências que ainda não compreendemos completamente.
Posts baseados em: Amato AC. The Evolutionary Theory of Lipedema: A Perspective on Energy Storage and Chronic Inflammation. Cureus. 2025;17(7):e88809. DOI: 10.7759/cureus.88809
Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).
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