Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL
Índice
- O que é este estudo e por que importa
- O problema: por que o lipedema é tão difícil de diagnosticar
- A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
- O que isso muda na prática
- Você sabia que…?
- Referência científica
O que é este estudo e por que importa
“O médico olhou para as minhas pernas e disse que era obesidade.” Essa frase é repetida por inúmeras mulheres com lipedema ao redor do mundo. O subdiagnóstico é um dos maiores problemas desta condição — e uma das razões é a falta de um exame objetivo e acessível para confirmar o diagnóstico.
Um estudo publicado em 2021 na revista Phlebology, feito por pesquisadores brasileiros, deu um passo importante para mudar isso. Os pesquisadores mediram a espessura da pele e do tecido subcutâneo em pontos específicos das pernas, usando simplesmente o ultrassom vascular — o mesmo aparelho usado para avaliar varizes —, e estabeleceram valores de corte precisos para distinguir mulheres com e sem lipedema.
A pesquisa analisou 89 pacientes do sexo feminino: 63 com lipedema clinicamente diagnosticado e 26 sem a condição. Os resultados foram claros e reproduzíveis: a espessura do tecido subcutâneo é significativamente maior em quem tem lipedema, em regiões específicas da perna, e esses valores permitem um diagnóstico objetivo.
Isso importa porque o ultrassom é um exame simples, disponível na maioria dos consultórios e clínicas, sem radiação, de custo acessível e que já faz parte da rotina de avaliação vascular. Integrá-lo ao diagnóstico do lipedema pode acelerar muito o reconhecimento dessa condição.
O problema: por que o lipedema é tão difícil de diagnosticar
O lipedema é confundido, e muito. Com obesidade. Com linfedema. Com varizes. Com simples “pernas grossas”. E enquanto o diagnóstico não chega, a doença progride, a paciente sofre, e muitas vezes recebe tratamentos inadequados — ou nenhum tratamento.
Por que é tão difícil? Porque, até recentemente, não existia um exame laboratorial ou de imagem que dissesse com clareza: “isso é lipedema”. O diagnóstico era — e ainda é, em grande parte — clínico, baseado na observação de um médico experiente. Mas nem todo médico conhece o lipedema. E não existia uma medida objetiva, numérica, que qualquer profissional pudesse verificar.
Além disso, o lipedema frequentemente coexiste com outras condições: 45% das pacientes do estudo também tinham varizes. Separar o que é de cada doença é um desafio real.
O BMI também atrapalha: 81% das pacientes com lipedema no estudo seriam classificadas como sobrepeso ou obesas apenas pelo IMC — o que desvia o olhar clínico da verdadeira condição.
Enquanto esse cenário persistir, mulheres com lipedema continuarão ouvindo que “é só questão de comer menos e se mexer mais”. Este estudo é uma tentativa concreta de dar aos médicos uma ferramenta objetiva para enxergar além disso.
A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
As diferenças no tecido subcutâneo entre mulheres com e sem lipedema foram impressionantes:
- Coxa: lipedema 20,9 mm vs. controle 12,7 mm — diferença de quase 8 mm
- Região pré-tibial (canela): lipedema 16,2 mm vs. controle 8,3 mm — quase o dobro
- Face lateral da perna: lipedema 12,9 mm vs. controle 6,8 mm — quase o dobro
- Supramaleolar (acima do tornozelo): lipedema 12,1 mm vs. controle 6,1 mm
Todas as diferenças foram estatisticamente altamente significativas (p<0,001).
A partir desses dados, os pesquisadores estabeleceram valores de corte diagnósticos para o ultrassom:
- Região pré-tibial: >11,7 mm sugere lipedema — com excelente acurácia (AUC 0,91), sensibilidade de 79% e especificidade de 96%
- Coxa: >17,9 mm sugere lipedema — boa acurácia (AUC 0,89)
- Lateral da perna: >8,4 mm sugere lipedema — boa acurácia (AUC 0,89)
A região pré-tibial foi a grande estrela: uma espessura acima de 11,7 mm na canela, medida no ponto médio da tíbia, foi capaz de identificar corretamente o lipedema em 96% dos casos sem a doença (especificidade) e em 79% dos casos com a doença (sensibilidade).
O que isso muda na prática
Um diagnóstico que antes dependia exclusivamente da experiência clínica do médico agora pode ter apoio de um número objetivo. Isso muda muito.
Na prática, o que esse estudo representa:
1. O ultrassom de varizes pode incluir o diagnóstico de lipedema. As medições de espessura do tecido podem ser integradas ao protocolo de eco-Doppler venoso que muitas mulheres já fazem. Sem custo adicional, sem novo exame — apenas incluindo quatro pontos de medição na mesma consulta.
2. Valores de referência claros: Se a espessura na canela (pré-tibial) ultrapassar 11,7 mm, vale investigar lipedema. Se a coxa ultrapassar 17,9 mm. Se a lateral da perna ultrapassar 8,4 mm. Esses são números que qualquer ultrassonografista pode medir.
3. Diagnóstico mais precoce: Com uma ferramenta objetiva disponível, fica mais difícil para o médico descartar a hipótese de lipedema “a olho nu”. Isso pode acelerar o acesso ao diagnóstico correto — e ao tratamento adequado.
4. Confirmação bilateral: Como o lipedema é sempre bilateral e simétrico, medir os dois lados ajuda a confirmar o diagnóstico. Assimetria significativa pode indicar outra causa.
Para pacientes que ainda buscam um diagnóstico, perguntar ao médico sobre a medição da espessura subcutânea no ultrassom pode ser um passo prático importante.
Você sabia que…?
Você sabia que uma simples medição no ultrassom da canela pode identificar o lipedema com 96% de precisão?
Esse é um dos achados mais impressionantes do estudo publicado em 2021 na revista Phlebology. Ao medir a espessura do tecido subcutâneo na região pré-tibial — a parte da frente da canela —, os pesquisadores conseguiram distinguir mulheres com e sem lipedema com uma especificidade de 96%. Um valor de mais de 11,7 mm nessa medição é altamente sugestivo de lipedema.
E mais: esse exame não precisa de equipamento especial. O mesmo aparelho de ultrassom usado para avaliar varizes no consultório é suficiente. A medição leva segundos.
Outro dado surpreendente: 45% das mulheres com lipedema no estudo também tinham varizes — o que significa que muitas delas já passaram ou passarão por um eco-Doppler venoso na vida. Se essa medição extra fosse incluída no protocolo padrão, o diagnóstico de lipedema poderia ser feito muito mais cedo, em um exame que a paciente já faria de qualquer forma.
Atualmente, o lipedema é estimado em aproximadamente 11% da população feminina — mas a grande maioria não tem diagnóstico. Ferramentas simples e acessíveis como essa podem mudar essa realidade.
O diagnóstico começa com quem enxerga além do óbvio.
Referência científica
Amato ACM, Saucedo DZ, Santos KS, Benitti DA. Ultrasound criteria for lipedema diagnosis. Phlebology. 2021;36(8):651-658. DOI: 10.1177/02683555211002340.
Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).
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