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Nódulos no lipedema: o que o ultrassom mostra

Nódulos no lipedema: o que o ultrassom mostra

“Bolinhas” sob a pele estão entre as descrições mais comuns de quem convive com lipedema. No exame físico, o tecido aumentado pode ser granular ou nodular à palpação, e as pacientes o descrevem como grão de areia, “saco de sagu”, bolinhas de isopor, ervilhas em um saco plástico ou, com frequência, “celulite” — é o que registra o capítulo 22, “Lipedema”, do livro Propedêutica Vascular [1]. O que se sente com os dedos é assunto do verbete nódulos subcutâneos do glossário.

Esta página, produzida pela Associação Brasileira de Lipedema, trata de outra pergunta: o que o ultrassom mostra quando olha para dentro desse tecido. Entre 2025 e 2026, um grupo de pesquisadores ligado a um serviço de ultrassonografia de São Paulo publicou uma sequência de trabalhos sobre isso — uma classificação da aparência do tecido, um relato de caso com biópsia de nódulos e uma subdivisão dos nódulos em quatro padrões. O presidente da Associação é coautor desses trabalhos. São estudos pequenos e iniciais: abrem caminho, mas ainda não mudam a forma de diagnosticar nem de tratar o lipedema. É com esse cuidado que os resumimos aqui.

Antes dos nódulos: o ultrassom que mede

O primeiro uso do ultrassom no lipedema foi quantitativo. Um estudo de 2021, com 89 mulheres com e sem lipedema, mediu a espessura da pele e do tecido subcutâneo em pontos padronizados dos membros inferiores e propôs valores de corte: acima de 11,7 mm na região pré-tibial (a frente da canela), de 17,9 mm na coxa e de 8,4 mm na face lateral da perna [2]. O mesmo trabalho lembra que o diagnóstico do lipedema continua sendo, antes de tudo, clínico [2]. Os detalhes estão em ultrassom no diagnóstico do lipedema: critérios objetivos, e o papel de cada exame, em ultrassom e exames no lipedema.

A espessura, porém, diz quanto tecido existe, e não como ele está organizado. Foi aí que entraram os trabalhos mais recentes.

Uma nota de vocabulário ajuda na leitura. No ultrassom, a imagem se forma em tons de cinza, e quanto mais “ecogênico” é um tecido, mais claro e brilhante ele aparece [1]. Um nódulo “hiperecogênico” ou “ecogênico” é, portanto, uma área mais clara que a gordura ao redor; uma área “anecoica” é uma área escura, sem eco.

Uma classificação pela aparência do tecido

Em 2025, pesquisadores de São Paulo analisaram retrospectivamente imagens de ultrassom de 34 mulheres de 20 a 47 anos com diagnóstico clínico de lipedema, obtidas em 2024 com transdutores de alta frequência. Mulheres com obesidade associada foram excluídas da análise [3].

Primeiro, eles descreveram o padrão normal: a gordura sob a pele aparece “em camadas”, atravessada por septos — finas linhas claras — retos e regularmente espaçados. Em imagens de mulheres com obesidade sem lipedema, a camada de gordura era mais espessa, sobretudo na parte profunda, mas os septos continuavam retos e a organização em camadas se mantinha [3]. Essa diferença é o que o ultrassom procura.

Nas pacientes com lipedema, os autores identificaram quatro padrões e os organizaram na Classificação Dérmica e Hipodérmica do Lipedema, conhecida pela sigla em inglês LDHC [3]:

Padrão Organização do tecido Septos Nódulos ecogênicos Pele e transição pele-gordura
LDHC 1 preservada retos e finos, menos de 50% rompidos ausentes preservadas
LDHC 2 abaulada irregulares, cerca de 50% rompidos ausentes preservadas
LDHC 3 camada profunda abaulada, superficial desorganizada irregulares, rompidos sobretudo na camada superficial presentes pele espessada de forma assimétrica; transição irregular
LDHC 4 “marmorizada” irregulares, ramificados e verticalizados, mais de 50% rompidos ausentes pele espessada de forma assimétrica; transição “serrilhada”

Os nódulos ecogênicos, portanto, são o que define o padrão LDHC 3. No padrão 4, que os autores comparam às estrias desordenadas do mármore, eles não aparecem [3].

Os próprios autores chamam a classificação de preliminar. Ela ainda precisa ser validada em estudos com vários centros, com grupos de comparação (mulheres com obesidade e com linfedema), com medida formal de concordância entre examinadores, com comparação com a análise do tecido ao microscópio e com acompanhamento ao longo do tempo. O artigo também não informa quantas das 34 pacientes ficaram em cada padrão [3].

O que havia dentro de um nódulo: o relato de caso com biópsia

A pergunta seguinte era do que são feitos esses nódulos. O mesmo grupo publicou, em 2025, o caso de uma mulher de 55 anos, com lipedema em estágio clínico 3 e vários nódulos palpáveis e dolorosos sob a pele [4].

No ultrassom, havia nódulos ecogênicos nos pontos clinicamente dolorosos, com bordas mal definidas e irregulares, e sem o aspecto de um lipoma. Como era preciso afastar outras possibilidades, entre elas neoplasia e angiodisplasia (malformação de vasos), a biópsia foi indicada: dois nódulos, um na parte de trás da coxa e outro na parte de trás do braço, foram marcados com ultrassom e retirados com anestesia local [4].

Os achados, descritos por três patologistas que analisaram o material de forma independente e às cegas [4]:

  • A olho nu: o nódulo tinha cor avermelhada, sugestiva de sangue, o que combinava com a imagem ecogênica do ultrassom.
  • Ao microscópio, no nódulo da coxa: áreas de sangramento com depósitos de hemossiderina, proliferação de tecido fibroso e focos de esteatonecrose — células de gordura mortas, das quais restam apenas “contornos fantasmas”. Não havia inflamação dos vasos nem infiltrado inflamatório importante, e a pele não tinha alterações relevantes.
  • Ao microscópio, no nódulo do braço: extravasamento de sangue e reação inflamatória com histiócitos, que os autores relacionam, com cautela, a uma fase mais avançada ou crônica.
  • Os autores também descrevem vasos recém-formados, de arquitetura irregular e parede frágil.

Os pesquisadores ainda mediram, com Doppler, o índice de resistência das pequenas artérias da gordura sob a pele, comparando a paciente com uma pessoa sem lipedema. O índice foi maior na paciente: 0,83 contra 0,68 na coxa e 0,75 contra 0,66 no braço [4]. Os autores esperavam o contrário e interpretam o achado, isolado, como sinal indireto de pressão aumentada dentro do compartimento de gordura. A comparação tem limites evidentes: foi feita com uma única pessoa, de 29 anos e IMC 23,0, enquanto a paciente tinha 55 anos e IMC 28,7 [4].

A partir desses achados, os autores propõem uma explicação, apresentada como hipótese: o crescimento desorganizado da gordura aumentaria a pressão no tecido, reduzindo a chegada de oxigênio; a falta de oxigênio estimularia a formação de vasos novos, imaturos e frágeis, que se romperiam e sangrariam; o sangramento atrairia células inflamatórias e levaria, com o tempo, à fibrose. Eles próprios afirmam que a sequência exata dos eventos é incerta e precisa de mais estudo [4]. Sugerem também que, em casos típicos, a imagem de ultrassom poderia funcionar como uma “biópsia virtual”, dispensando procedimentos invasivos — uma possibilidade que depende de confirmação [4].

É importante dimensionar a base dessa explicação. Uma síntese publicada em 2026 pelo mesmo grupo, reunindo os estudos com biópsia em lipedema, registra que o sangramento entre os lóbulos de gordura foi observado em um único relato de caso — este [5].

Nódulos diferentes entre si: os quatro padrões

O terceiro trabalho, também de 2025, olhou de perto para os nódulos do padrão LDHC 3. Foram 20 pacientes com lipedema e nódulos ecogênicos, com idade média de 41,95 anos e IMC médio de 26,65, recrutadas entre janeiro e setembro de 2025; pacientes com obesidade associada foram excluídas. Os exames foram feitos por dois radiologistas com pelo menos dez anos de experiência, em dois aparelhos diferentes, para testar se os achados se repetiam [6].

Os pesquisadores encontraram 62 nódulos, a maioria na parte de trás e na lateral da coxa. Na classificação clínica, 13 pacientes (65%) estavam no grau 2 e 7 (35%) no grau 3. Pelo aspecto no ultrassom, os nódulos foram divididos em quatro tipos [6]:

Tipo Bordas Brilho no ultrassom Área escura (anecoica) Leve sombra atrás do nódulo Nódulos (de 62)
LDHC 3a mal definidas levemente ecogênico ausente ausente 35
LDHC 3b bem definidas ecogênico ausente ausente 12
LDHC 3c variáveis ecogênico presente ausente 8
LDHC 3d bem definidas ecogênico ausente presente 7

Os autores levantam a hipótese de que os tipos representem fases diferentes de um mesmo processo, ligadas ao tempo desde o sangramento e ao grau de reabsorção. A área escura do tipo 3c poderia corresponder à reabsorção de um sangramento, a uma área central de necrose de gordura ou a um sangramento novo dentro de um antigo; a sombra do tipo 3d poderia indicar tecido mais denso, pela expansão do sangramento ou por fibrose, numa fase mais crônica. São interpretações, não achados confirmados: nenhum desses tipos foi comparado com biópsia [6].

Três observações do estudo interessam a quem convive com lipedema [6]:

  • Número e tipo de nódulos não mostraram relação com IMC, idade ou tempo desde o diagnóstico.
  • O fator mais associado à distribuição dos nódulos foi o ponto mais dolorido indicado pela própria paciente.
  • Os tipos de nódulo não se relacionaram com roxos na pele nem com irregularidades palpáveis da pele.

O estudo relata alta concordância entre os examinadores e entre os aparelhos, mas não apresenta um índice estatístico dessa concordância, e as associações clínicas também não vêm acompanhadas de testes estatísticos. Os autores concluem que ainda são necessários estudos com análise do tecido, elastografia ou Doppler para caracterizar cada tipo [6].

O que isso significa hoje, e o que ainda não significa

Esses trabalhos mostram que o ultrassom pode ir além da medida de espessura e descrever a arquitetura do tecido no lipedema, incluindo os nódulos. Isso tem valor de pesquisa e de documentação: uma descrição padronizada facilita comparar achados entre serviços, como defendem os autores [6], e a ligação entre nódulos e pontos dolorosos abre uma linha de investigação sobre a dor no lipedema. Os autores do relato de caso sugerem ainda que nódulos dolorosos do padrão LDHC 3 possam ajudar a diferenciar o lipedema de obesidade, lipoma e linfedema [4].

Ao mesmo tempo, a base ainda é estreita:

  • os três estudos vêm de um mesmo grupo e incluíram 34, 1 e 20 pacientes, respectivamente;
  • os estudos de classificação não tiveram grupo de comparação formal, e nenhum mediu estatisticamente a concordância entre examinadores;
  • a correspondência entre nódulo e sangramento se apoia em um único caso, com dois nódulos biopsiados;
  • nenhum estudo acompanhou os nódulos ao longo do tempo ou do tratamento;
  • ainda não se sabe se conhecer o padrão ou o tipo de nódulo muda alguma decisão de tratamento.

Na prática, o diagnóstico do lipedema continua clínico, com o ultrassom como apoio [2]. Se um laudo mencionar “LDHC” ou “nódulos ecogênicos”, é esse o contexto: uma classificação proposta recentemente, útil para descrever o tecido, mas ainda em validação. E um nódulo com aspecto diferente do habitual deve ser avaliado pelo médico — no próprio relato de caso, a biópsia foi feita justamente porque era preciso afastar outras causas [4].

Para entender como a doença evolui, veja estadiamento do lipedema; para a diferença entre as condições que o ultrassom ajuda a separar, qual a diferença entre lipedema, obesidade e linfedema; e, sobre a confusão frequente com a textura da pele, lipedema ou celulite.

Perguntas frequentes

As bolinhas que sinto na perna são os nódulos que aparecem no ultrassom?

Não necessariamente. A textura granular ou nodular à palpação é descrita há muito tempo no lipedema. Os nódulos ecogênicos são um achado de imagem; no estudo com 62 nódulos, sua distribuição se associou ao ponto mais dolorido relatado pela paciente, mas os tipos de nódulo não se relacionaram com irregularidades palpáveis da pele.

O que é a classificação LDHC do lipedema?

É uma classificação proposta em 2025 por pesquisadores brasileiros que descreve, em quatro padrões, como a gordura e a pele aparecem no ultrassom de pessoas com lipedema. Os nódulos ecogênicos definem o padrão 3. Os autores a consideram preliminar, dependente de validação em outros centros.

Do que é feito um nódulo do lipedema?

No relato de caso em que nódulos vistos no ultrassom foram retirados e examinados, eles mostraram sangramento com depósitos de hemossiderina, necrose de gordura, tecido fibroso e vasos novos frágeis. É um caso só; a biópsia foi feita para afastar outras causas, e nódulo com aspecto diferente do habitual deve ser avaliado por médico.

O ultrassom confirma o lipedema?

Não sozinho. O diagnóstico continua clínico. O ultrassom ajuda a documentar, medindo a espessura do tecido em pontos padronizados e, mais recentemente, descrevendo sua aparência.

Os nódulos do lipedema somem com o tratamento?

Não se sabe. Nenhum estudo publicado acompanhou os nódulos ao longo do tratamento. Os autores apontam esse acompanhamento como uma das próximas etapas da pesquisa.

Referências

  1. Amato ACM. Propedêutica Vascular. São Paulo: Amato – Instituto de Medicina Avançada; 2024. ISBN 978-65-980001-0-3.
  2. Amato ACM, Saucedo DZ, Santos KS, Benitti DA. Ultrasound criteria for lipedema diagnosis. Phlebology. 2021;36(8):651-658. doi:10.1177/02683555211002340 PMID: 33853452
  3. Vargas D, Santos AMR, Bueno AN, Bezerra AS, Bianchi MA, Amato ACM. The Challenge of a Qualitative Ultrasonographic Classification in Lipedema. J Biomed Sci Eng. 2025;18(4):106-112. doi:10.4236/jbise.2025.184008
  4. Vargas D, Lellis RF, Chagas LC, Saiki PY, Santos AMR, Bianchi MA, Ribeiro AT, Soares EAS, Bizareli GNM, Cunha IW, Bezerra AS, Amato ACM, Bueno AN. Case Report of Painful Nodules in Lipedema: Correlation between Qualitative Ultrasonographic Classification and Histological Findings. J Biomed Sci Eng. 2025;18(8):372-383. doi:10.4236/jbise.2025.188026
  5. Vargas D, Foureaux TO, Bianchin PRG, Lellis RF, Chagas LC, Saiki PY, et al. The Etiology of Pain in Lipedema Is Not Yet Fully Understood. An Integrative Synthesis of Inflammatory, Hypoxic-Hemorrhagic, Adipomyofascial, and Neuromolecular Mechanisms Based on Histopathological Evidences. J Biomed Sci Eng. 2026;19(3):129-140. doi:10.4236/jbise.2026.193011
  6. Foureaux TO, Vargas D, Lellis RF, Chagas LC, Cunha IW, Saiki PY, Soares EAS, Bizareli GNM, Bezerra AS, Amato ACM, Bueno AN. The Hyperechoic Nodules in Lipedema Are Not All the Same: Description of Criteria and Their Qualitative Patterns. J Biomed Sci Eng. 2025;18(10):401-407. doi:10.4236/jbise.2025.1810029

Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.

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