Revisão médica: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651 · Série de artigos científicos da ABL
Índice
- O que é este estudo e por que importa
- O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas
- A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
- O que isso muda na prática
- Você sabia que…?
- Referência científica
O que é este estudo e por que importa
Você sabia que o lipedema e o TDAH podem andar juntos com muito mais frequência do que a medicina imaginava? Um estudo publicado em 2023 na revista Cureus, feito por pesquisadores brasileiros, investigou exatamente essa relação — e os resultados surpreenderam.
O lipedema é uma condição que causa o acúmulo anormal de gordura nas pernas e quadris, geralmente acompanhado de dor, inchaço e inflamação. O TDAH é o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, condição que afeta a capacidade de concentração, o controle de impulsos e a organização do cotidiano. À primeira vista, parecem doenças muito diferentes. Mas há um elemento em comum pouco falado: a inflamação.
Os pesquisadores aplicaram dois questionários — um de rastreamento de lipedema e outro de TDAH (a escala ASRS-18) — para 354 mulheres voluntárias, com ou sem diagnóstico prévio de lipedema. O objetivo era entender se mulheres com lipedema apresentavam mais sintomas de TDAH do que aquelas sem a condição.
O estudo importa porque, se existe essa conexão, o tratamento do lipedema não pode ignorar a saúde mental. Estratégias específicas de acompanhamento, comunicação e adesão ao tratamento precisam ser pensadas para essa população. É mais do que tratar as pernas — é cuidar da pessoa inteira.
O problema: como o lipedema afeta a vida das pessoas
Imagina acorda toda manhã com as pernas pesadas, doloridas, e perceber que, por mais que você se cuide — faça dieta, se exercite — aquilo não muda. E além da dor física, há o peso de não ser compreendida pelos médicos, pelos familiares, e às vezes por si mesma.
Essa é a realidade de muitas mulheres com lipedema. A condição causa um acúmulo anormal de gordura nos membros inferiores, com inflamação crônica de baixo grau, dor espontânea, equimoses fáceis e sensibilidade ao toque. E o pior: é frequentemente confundida com obesidade comum ou linfedema, levando anos sem diagnóstico correto.
Mas o estudo sobre lipedema e TDAH mostra que a história vai além. Mulheres com lipedema têm mais chance de apresentar sintomas de TDAH — dificuldade de concentração, impulsividade, desorganização — o que complica ainda mais a vida. O TDAH pode dificultar a adesão a tratamentos longos e repetitivos, comprometer a frequência às consultas e tornar mais difícil a tomada de decisões sobre saúde.
Entre as pacientes com lipedema no estudo, 77% apresentaram rastreio positivo para TDAH. No grupo sem lipedema, esse número foi de 54%. Uma diferença expressiva que não pode ser ignorada.
O lipedema não afeta apenas as pernas. Afeta a vida toda.
A descoberta: o que os pesquisadores encontraram
Os números falam por si: entre as 130 mulheres identificadas com critérios para lipedema, 77% apresentaram rastreio positivo para TDAH. No grupo de 224 mulheres sem lipedema, esse número foi de 54%. A diferença foi estatisticamente significativa, com um risco relativo de 1,42 — ou seja, mulheres com lipedema têm 42% mais chance de também ter sintomas de TDAH.
Além disso, os pesquisadores encontraram uma correlação positiva direta: quanto mais intensos os sintomas de lipedema relatados pela mulher, mais intensos também eram os sintomas de TDAH. Isso sugere que as duas condições não apenas coexistem por acaso — pode haver um mecanismo comum entre elas.
A hipótese mais plausível é a inflamação. O lipedema é uma doença inflamatória crônica do tecido adiposo. O TDAH, por sua vez, tem sido cada vez mais associado a processos inflamatórios e imunológicos. Quando a inflamação do lipedema está em pico, ela pode agravar sintomas cognitivos — atenção, memória de trabalho, controle de impulsos.
O estudo foi feito no Brasil, com 354 voluntárias, usando questionários validados. Não é possível estabelecer causalidade — se o lipedema “causa” o TDAH ou vice-versa — mas a associação é forte e abre um caminho importante para pesquisas futuras.
O que isso muda na prática
Se você tem lipedema e às vezes sente que não consegue se organizar, que esquece as consultas, que começa tratamentos e não consegue manter — saiba que pode haver uma razão além da “falta de força de vontade”. A ciência está mostrando que TDAH e lipedema caminham juntos com frequência muito maior do que se imaginava.
Na prática, esse estudo muda algumas coisas importantes:
Para pacientes: Se você tem lipedema e se identifica com sintomas de TDAH — dificuldade de concentração, impulsividade, sensação de estar sempre atrasada, dificuldade com rotinas —, vale conversar com seu médico sobre uma avaliação específica para TDAH.
Para os médicos: O estudo recomenda que o rastreamento de TDAH seja incorporado à avaliação de rotina das pacientes com lipedema. Estratégias que melhorem a adesão ao tratamento — lembretes, consultas mais estruturadas, comunicação clara — podem fazer grande diferença nos resultados.
Para o tratamento cirúrgico: Os autores alertam que a cirurgia para lipedema só deve ser considerada quando as condições de saúde mental estiverem estabilizadas. O TDAH pode impactar diretamente o seguimento pós-operatório e os resultados a longo prazo.
Cuidar do lipedema começa por enxergar a mulher inteira — não apenas as pernas.
Você sabia que…?
Você sabia que 77% das mulheres com lipedema tiveram rastreio positivo para TDAH em um estudo brasileiro?
Isso mesmo. Três em cada quatro mulheres com sintomas de lipedema também apresentavam sintomas significativos de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade — uma porcentagem muito maior do que os 54% observados no grupo sem lipedema.
E tem mais: os pesquisadores descobriram que quanto mais intensos os sintomas de lipedema, mais intensos também eram os sintomas de TDAH — uma correlação positiva direta, comprovada estatisticamente.
A explicação pode estar em algo que conecta as duas condições: a inflamação crônica. O lipedema é uma doença inflamatória do tecido gorduroso. O TDAH, por sua vez, tem sido progressivamente associado a mecanismos inflamatórios e imunológicos no cérebro. Nos momentos de pico inflamatório do lipedema, a cognição pode ser diretamente afetada.
O que isso nos ensina? Que o lipedema não é “só” uma questão estética ou física. Ele envolve a saúde mental, a capacidade de manter tratamentos, de comparecer às consultas, de tomar decisões. Reconhecer essa conexão pode transformar a forma como mulheres com lipedema são acompanhadas e tratadas.
Mais uma prova de que o corpo humano é muito mais integrado do que parece.
Referência científica
Amato AC, Amato JL, Benitti DA. The association between lipedema and attention-deficit/hyperactivity disorder. Cureus. 2023;15(2):e35570. DOI: 10.7759/cureus.35570.
Autor e revisor médico: Dr. Alexandre Amato — CRM-SP 108651. Cirurgião vascular, fundador da Associação Brasileira de Lipedema (ABL).
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