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Sinal do cacifo (sinal de Godet)

O sinal do cacifo, também chamado de sinal de Godet, é a marca afundada que fica na pele depois de uma pressão firme com o dedo sobre uma região inchada. A depressão — o cacifo, ou fóvea — mostra que há líquido acumulado no espaço entre as células, que se desloca com a pressão e demora a voltar. É um gesto essencial do exame físico e aparece na maioria dos edemas, das mais diversas causas [1]. No lipedema, costuma estar ausente ou ser muito discreto, o que ajuda a separá-lo de outros tipos de inchaço [1,2].

Como o profissional pesquisa o sinal

Como descrito no livro Propedêutica Vascular, o examinador pressiona a pele com a ponta do indicador ou do polegar, evitando a unha, contra uma superfície óssea — a tíbia, a fíbula, o dorso do pé ou o sacro — por pelo menos cinco segundos. O sinal é positivo quando a depressão formada não se desfaz imediatamente depois que a pressão é retirada [1].

Além da presença do cacifo, o profissional observa a profundidade da depressão, o tempo que a pele leva para voltar e a consistência do tecido sob o dedo [1]. Essa pesquisa faz parte da palpação, junto com o sinal de Stemmer e a observação do inchaço no dorso do pé [1]. Às vezes o próprio corpo faz o teste: ao tirar a meia, aparece um cacifo circular na altura do elástico [1].

A descrição serve para entender o exame; a leitura do resultado depende da técnica e do contexto clínico, e cabe a quem examina.

A graduação de 1+ a 4+

O livro apresenta uma escala em cruzes, baseada na profundidade da depressão e no tempo de retorno da pele [1]:

Grau Profundidade Como se comporta
1+ até 2 mm sem distorção do membro; a pele volta rápido
2+ 2 a 4 mm sem distorção; volta em 10 a 25 segundos
3+ 4 a 6 mm pode durar 1 minuto; o membro parece inchado e preenchido
4+ 6 a 8 mm pode durar de 2 a 5 minutos; o membro fica grosseiramente deformado

A escala mede a profundidade e a persistência da marca, não a causa do inchaço.

O que o cacifo revela sobre o tecido

A presença e a intensidade do sinal se associam às alterações do tecido. Uma depressão profunda significa mais líquido fora das células e menos endurecimento. Depressões pequenas significam menos líquido no tecido e maior presença de gordura e de fibrose [1].

A resistência que o dedo encontra também informa. O tecido é chamado de duro quando resiste mais à compressão, o que traduz proliferação de fibroblastos ou tecido gorduroso — situação dos edemas de longa duração, do lipedema e dos quadros com repetidos surtos de inflamação. É chamado de mole quando afunda com facilidade, típico de edemas mais recentes [1].

O cacifo no lipedema

O inchaço do lipedema não apresenta sinal de Godet ou tem uma depressão muito discreta, e costuma deixar marcas da roupa no fim do dia [1]. O Consenso Brasileiro de Lipedema registrou que o edema com depressão geralmente não está presente no tecido afetado pelo lipedema, e também que elevar a perna geralmente não reduz o volume [2]. As duas observações apontam na mesma direção: o aumento de volume é sobretudo de gordura, e não de líquido livre que o dedo desloca ou que escoa com a perna para cima.

Discreto, porém, não é o mesmo que ausente. Na série clássica da Mayo Clinic publicada em 1951, com 119 pacientes, 24% tinham cacifo mínimo a leve [3]. Num estudo espanhol recente, o cacifo foi registrado em 14,5% de 138 mulheres com lipedema, contra 64,9% de 111 mulheres com linfedema [4].

Como ajuda a separar lipedema, linfedema, obesidade e outros edemas

No quadro comparativo do livro, o lipedema é não depressível ou pouco depressível; o linfedema é depressível nos estágios 1 e 2 e deixa de sê-lo no estágio 3, quando o tecido endurece; na obesidade, normalmente não há edema [1]. Uma revisão alemã resume de modo parecido: todo linfedema permite produzir depressão pela pressão, enquanto o lipedema, sem linfedema associado, em geral não afunda [5]. Mais detalhes em lipedema, obesidade e linfedema.

O cacifo também aparece em muitas outras situações: insuficiência venosa, sequela de trombose, doenças do coração, dos rins e do fígado, hipotireoidismo, falta de proteína no sangue, uso de alguns medicamentos, longos períodos em pé, gravidez e excesso de sal, entre outras [1]. Por isso, um cacifo evidente em quem tem lipedema é motivo para procurar um segundo componente — um linfedema associado, como no lipolinfedema, uma insuficiência venosa ou uma causa sistêmica —, situação discutida em quando lipedema, obesidade, linfedema e insuficiência venosa se sobrepõem.

O livro também alerta que o cacifo não deve ser confundido com a manobra de vitropressão, em que uma lâmina de vidro é pressionada sobre uma mancha da pele para saber se ela é de origem vascular [1]. Essa manobra é tratada no verbete sobre equimoses e fragilidade capilar.

Limitações

Por estar presente na maioria dos edemas, o cacifo positivo não diagnostica nenhuma doença específica, nem mesmo o linfedema [1]. O negativo também não encerra a questão: edemas antigos e fibrosados, como o linfedema no estágio 3, podem não afundar [1]. E, como nem o lipedema nem a obesidade costumam formar cacifo, o sinal não ajuda a separar as duas condições — para isso contam a distribuição da gordura, a dor e os roxos fáceis, como explicado em como é feito o diagnóstico do lipedema.

Perguntas frequentes

O que significa sinal do cacifo positivo?

Que há excesso de líquido no tecido, deslocado pela pressão do dedo. É um achado presente na maioria dos edemas, de causas muito variadas, e por isso indica inchaço, não uma doença específica.

Lipedema faz cacifo?

Em geral não, ou faz uma depressão muito discreta. Um cacifo evidente em quem tem lipedema leva o profissional a investigar outra causa associada, como linfedema ou insuficiência venosa.

A marca da meia no fim do dia é cacifo?

Pode ser. O livro descreve o cacifo circular que aparece ao tirar a meia, na altura do elástico, e observa que o inchaço do lipedema costuma deixar marcas da roupa no fim do dia.

O que quer dizer cacifo 1+ ou 4+?

A graduação vai de 1+ (depressão de até 2 mm, que volta rápido) a 4+ (de 6 a 8 mm, que pode durar minutos). Ela mede a profundidade e a persistência da marca; o que o inchaço significa depende da causa, que é o que a avaliação procura.

Referências

  1. Amato ACM. Propedêutica Vascular. São Paulo: Amato – Instituto de Medicina Avançada; 2024. ISBN 978-65-980001-0-3.
  2. Amato ACM, Peclat APRM, Kikuchi R, de Souza AC, Silva MTB, Oliveira RHP, Benitti DA, Oliveira JCP. Consenso Brasileiro de Lipedema pela metodologia Delphi. J Vasc Bras. 2025;24:e20230183. doi:10.1590/1677-5449.202301831
  3. Wold LE, Hines EA Jr, Allen EV. Lipedema of the legs: a syndrome characterized by fat legs and edema. Ann Intern Med. 1951;34(5):1243-1250. doi:10.7326/0003-4819-34-5-1243 PMID: 14830102
  4. Forner-Cordero I, Muñoz-Langa J, Morilla-Bellido L. Building evidence for diagnosis of lipedema: using a classification and regression tree (CART) algorithm to differentiate lipedema from lymphedema patients. Int Angiol. 2025;44(1):71-9. doi:10.23736/S0392-9590.25.05207-1
  5. Reich-Schupke S, Altmeyer P, Stücker M. Thick legs – not always lipedema. J Dtsch Dermatol Ges. 2013;11(3):225-233. doi:10.1111/ddg.12024 PMID: 23231593

Esta página é material informativo da Associação Brasileira de Lipedema e não substitui consulta médica. As referências acima são de acesso público; parte delas tem autoria de pesquisadores brasileiros ligados à Associação.